A necessidade de descarbonizar a construção civil tem gerado dois movimentos simultâneos. O primeiro envolve estratégias para reduzir o consumo de combustíveis fósseis e maximizar a eficiência energética da operação dos edifícios. Há, também, o engajamento crescente em direção à redução do carbono incorporado, aquele associado ao consumo de materiais, incluindo todos os impactos do seu ciclo de vida, desde a extração da matéria-prima até o descarte.
Por que o carbono incorporado está ganhando importância?

O Brasil assumiu o compromisso público de reduzir suas emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em comparação a 2005, e alcançar a neutralidade climática até 2050. Para estar alinhada a essas metas, a construção civil precisa cortar de forma significativa o carbono nas edificações.
Mas o desafio vai além. O mundo avança para a taxação das emissões e, nos últimos anos, o capital tem se direcionado para as empresas comprometidas com a descarbonização. Paralelamente, mudanças regulatórias reforçam a necessidade de controle. Já está em vigor, por exemplo, a Taxonomia Sustentável Brasileira, por meio do Decreto n.º 12.705, um avanço na agenda das finanças verdes.
Nesse contexto, o carbono incorporado tende a ganhar mais relevância na pegada setorial, avalia Adriana Hansen, diretora técnica de Sustentabilidade do CTE. “Em menos de dez anos, estima-se que as emissões de carbono incorporado representem 70% do total de emissões das edificações. Portanto, é urgente aumentar os esforços para combater essas emissões em escala global”, destaca Hansen.
O que influencia a pegada de carbono dos materiais?
A pegada de carbono de um material é influenciada por seu ciclo de vida completo, desde a extração da matéria-prima até o descarte ou reciclagem. Os fatores mais críticos incluem o tipo de matéria-prima, a energia usada na produção, o transporte, a durabilidade e as práticas de economia circular, como destacamos a seguir:
- Energia utilizada: Materiais que exigem processos de alta temperatura e consomem muita energia fóssil têm maiores emissões associadas. Esse é o caso do aço e do cimento, por exemplo.
- Origem da matéria-prima: Materiais de origem natural, como a madeira certificada, tendem a ter menor impacto, especialmente se provenientes de manejo sustentável.
- Distância da fonte até a obra: Quanto maior a distância, maior o consumo de combustível e, portanto, maior a pegada de carbono.
- Modal de transporte: Caminhões geram mais emissões por quilo transportado do que trens ou navios.
- Eficiência energética: Materiais que melhoram o isolamento térmico reduzem o consumo de energia durante a vida útil da construção.
- Durabilidade: Quanto mais tempo o material dura sem precisar ser substituído, menor o impacto acumulado.
- Reciclabilidade: Materiais que podem ser reaproveitados (como aço e vidro) reduzem a necessidade de novas extrações.
- Economia circular: Reuso e reciclagem diminuem as emissões associadas à produção de novos materiais.
Qual o papel dos fabricantes na redução do carbono incorporado?
O engajamento da indústria de materiais em prol da redução de emissões é essencial para que o setor seja mais sustentável.
Há múltiplas iniciativas em curso nessa direção, como a do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), que almejando a neutralidade de carbono até 2050, desenhou um roadmap que inclui o desenvolvimento de combustíveis e matérias‑primas alternativas, eficiência energética, captura, estocagem e uso de carbono, além de soluções baseadas na natureza (SbN).
A indústria do aço também vem fazendo movimentos interessantes. Dois exemplos são o desenvolvimento de produtos com menor emissão de carbono, como o vergalhão produzido a partir de sucata e com energia renovável, e a geração de certificados de créditos de carbono, obtidos pelo uso de gás natural ou biogás em vez de carvão na indústria.
O desenvolvimento de novos materiais e sistemas construtivos, também exerce um papel importante para a redução da pegada de carbono nas edificações. Um exemplo é a madeira engenheirada, que permite diminuir as emissões de carbono quando em substituição ao aço e ao concreto.
Como os fabricantes podem começar a medir o carbono incorporado em seus produtos?
- Passo 1: Mapear emissões no processo produtivo. Para isso, devem ser identificadas todas as fases de produção que geram emissões, como a extração de matérias-primas, processos industriais, transporte interno e externo, embalagem e distribuição.
- Passo 2: Utilizar metodologias reconhecidas para quantificar emissões e estabelecer métricas de desempenho ambiental dos produtos. Uma das principais ferramentas de avaliação é a análise do ciclo de vida (ACV), que examina aspectos e impactos ambientais ao longo do ciclo de vida de um produto ou serviço, desde a extração da matéria-prima até a destinação final. Esse método contribui com a obtenção de pontos para a certificações como LEED e Aqua-HQE, além de apoiar a comunicação de práticas de descarbonização ao mercado.
- Passo 3: Comunicar informações ambientais do produto. Para isso, vale usar ferramentas como a Declaração Ambiental de Produto, em inglês, Environmental Product Declaration (EPD). Trata-se de um estudo técnico profundo, com verificação por terceira parte e visão sistêmica e holística sobre o processo de fabricação do material para mensurar seus impactos ambientais. “Divulgar os dados de forma correta, seguindo as orientações das normas técnicas, é fundamental. Para a indústria, já não cabe mais o uso de termos vagos, como, por exemplo, ‘produto amigo do meio ambiente’”, salienta Renato Salgado, consultor de Sustentabilidade no CTE.
- Passo 4: A última etapa do processo consiste em compensar o residual de carbono que não foi possível eliminar com os ajustes na produção.
Conclusão
Já há empresas que utilizam o desempenho ambiental de seus produtos como estratégia de diferenciação no mercado. Saiba mais sobre dois exemplos: Saint-Gobain e ArcelorMittal.
“Quanto mais tivermos produtos com sistemas de responsabilidade estendida implantados, mais bem posicionados essas empresas estarão em um mercado competitivo e rigoroso com questões relacionadas às metas ambientais, ESG (Environmental, Social and Governance) e compromissos de longo prazo”, diz Renato Salgado.
Com uma equipe interdisciplinar, o CTE auxilia seus clientes fornecedores de materiais de diferentes maneiras, seja apoiando o desenvolvimento de documentações e comunicações que promovam maior transparência, seja assessorando as áreas de marketing para destacar os aspectos sustentáveis dos produtos de forma consistente e confiável, sem cair no greenwashing (maquiagem verde). Entre em contato e saiba mais sobre soluções para avaliação de carbono incorporado e análise de ciclo de vida.


