Em síntese:
- O mercado de carbono é um mecanismo financeiro no qual emissores de gases de efeito estufa pagam para compensar sua pegada ambiental, enquanto quem reduz ou remove emissões gera créditos negociáveis.
- A precificação transforma a redução de impactos em receita direta, mas exige auditoria matemática estrita das emissões.
- Construtoras e incorporadoras entram no jogo gerando créditos (via materiais sustentáveis, eficiência energética, etc) ou comprando cotas de terceiros para neutralizar seus projetos e manter a competitividade.
Diante da urgência global de reduzir os efeitos das mudanças climáticas, governos e iniciativa privada vêm unindo forças para descarbonizar as economias. Nos setores imobiliário e de construção civil, que historicamente carregam o peso de uma enorme pegada ambiental, o jogo mudou de forma definitiva: construir de forma sustentável e neutralizar emissões deixou de ser um diferencial para virar questão de sobrevivência econômica.
Com isso, o mercado de carbono vem assumindo cada vez mais protagonismo no Brasil e no mundo. Impulsionada pela expansão da agenda ESG (Environmental, Social and Governance), a demanda por créditos de carbono aumenta exponencialmente. Para se ter uma ideia, em 2021 o mercado voluntário atingiu a marca de US$ 1 bilhão. Para 2030, a expectativa é que esse valor salte para US$ 50 bilhões, segundo estimativas da consultoria McKinsey.
Esse montante bilionário não está sendo movimentado sem motivo. O mercado de carbono desempenha um papel crucial na transição para uma economia de baixo impacto, funcionando como uma ferramenta estratégica para o Brasil atingir suas metas de redução de gases de efeito estufa estabelecidas no Acordo de Paris.
O que é o mercado de carbono?
O mercado de carbono funciona como um sistema de compensação financeira para frear as mudanças climáticas. A premissa é simples: quem emite gases de efeito estufa (GEE) paga; quem reduz ou remove esses gases da atmosfera recebe por isso. A moeda desse mercado é o crédito de carbono, no qual 1 crédito equivale a 1 tonelada de CO₂ ou outros gases equivalentes que deixaram de ser emitidos.
Os créditos de carbono podem ser oriundos de projetos de diferentes naturezas. “Há aqueles que resolvem uma situação específica, como os resultantes de uma alteração na matriz energética de uma indústria. Há, também, os créditos que são fruto de iniciativas mais amplas, como de projetos que visam manter uma floresta em pé e que agregam uma série de serviços ambientais, como a manutenção da biodiversidade e a preservação de recursos hídricos”, comenta Adriana Hansen, diretora técnica de Sustentabilidade do CTE.
Como funciona o mercado de carbono no Brasil?

No final de 2024, o Brasil deu um passo importante para a mitigação das mudanças climáticas com a sanção da Lei n.º 15.042, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). O texto estabelece as bases para um mercado de carbono regulado no país, permitindo que empresas com emissões acima de limites pré-estabelecidos adquiram créditos de outras organizações que consigam reduzir suas emissões abaixo das metas fixadas.
A partir disso, o funcionamento do mercado nacional se organiza através de dois modelos:
Mercado regulado (modelo Cap-and-Trade)
Coordenado pelo governo e operado pelo SBCE, esse modelo estabelece um teto (cap) de emissões permitido para as indústrias que mais poluem.
Empresas que emitem acima de 10 mil toneladas de CO₂ por ano devem relatar suas emissões. Aquelas que ultrapassam as 25 mil toneladas por ano são formalmente obrigadas a entrar no sistema de compensação.
Se uma empresa moderniza sua operação (usando energia limpa ou melhorando a eficiência) e emite menos do que o seu teto, ela fica com créditos sobrando e pode vendê-los. Se outra empresa estourar o limite, precisará comprar essas cotas excedentes no mercado para evitar multas pesadas.
O mercado regulado de carbono não é uma ideia nova. Na verdade, ele é realidade em mais de 40 sistemas de comércio de emissões (ETS) em todo o mundo, cobrindo cerca de 26% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa. O mercado regulado mais antigo, maduro e institucionalizado do mundo é o da União Europeia, lançado em 2005. Ele cobre cerca de 40% das emissões do bloco, focando na geração de energia, indústrias pesadas, aviação e transporte marítimo. A China, por sua vez, possui o maior mercado regulado do mundo em volume absoluto de emissões reguladas, cerca de 8 bilhões de toneladas de CO₂.
Mercado voluntário
No mercado voluntário, ninguém é obrigado a participar. Empresas compram créditos por iniciativa própria para cumprir metas internas de sustentabilidade (como promessas de se tornarem Net Zero ou carbono neutro), atrair investidores focados em critérios ESG ou blindar sua reputação frente a consumidores exigentes.
Como funciona? Uma empresa, por exemplo uma desenvolvedora de projetos ambientais ou uma proprietária de terras na Amazônia, cria um projeto de reflorestamento, conservação florestal ou de geração de energia limpa. Entidades certificadoras internacionais independentes auditam o projeto e emitem os créditos. No outro extremo, uma empresa de tecnologia, um banco ou uma companhia aérea adquire esses créditos para neutralizar sua pegada.
Qualquer empresa, startup ou proprietário de terras pode gerar créditos de carbono voluntariamente desenvolvendo projetos ambientais e submetendo-os a auditorias internacionais.
Os tipos mais comuns de projetos no Brasil são:
- Reflorestamento e conservação: envolvem manter a floresta em pé (evitando o desmatamento) ou o plantio de novas árvores que absorvem carbono da atmosfera.
- Energia e resíduos: são os projetos de captura de metano em aterros sanitários ou substituição de combustíveis fósseis por biomassa em caldeiras industriais.
Com a Lei 15042, esses créditos do mercado voluntário ganham a roupagem de CRVs (Certificados de Redução Verificada). Se cumprirem as metodologias do governo, as grandes indústrias reguladas poderão comprar esses CRVs para abater suas próprias metas.
Como o mercado de carbono impacta empresas e investimentos
O avanço do mercado de carbono está gerando uma reorganização estrutural no mundo corporativo. Para o setor privado, a precificação do carbono altera a viabilidade financeira das operações e a cadeia de suprimentos de duas formas principais:
Práticas antes tratadas como obrigações ambientais ou custos de descarte passam a gerar receita direta.
Além disso, para as empresas que se enquadram ou negociam com setores regulados, a precisão matemática tornou-se indispensável. Isso significa que:
- As companhias precisam estar totalmente equipadas para monitorar, reportar e auditar suas emissões com o mesmo rigor dedicado aos balanços financeiros.
- A falta de transparência ou a divulgação de dados imprecisos pode acarretar pesadas penalidades regulatórias e sérios riscos à reputação, afastando parceiros de negócios na cadeia global de fornecimento.
Para quem atua em setores estratégicos como infraestrutura, construção ou gestão de terras, o momento exige a estruturação de inventários de emissões confiáveis e rastreabilidade na cadeia de fornecedores, garantindo conformidade e aproveitando o potencial de receitas geradas por ativos ambientais.
A elaboração desse inventário deve seguir padrões e metodologias internacionalmente reconhecidas. A mais usual é a do Protocolo de Gases de Efeito Estufa (GHG Protocol), que categoriza as emissões em três escopos:
- Escopo 1 — Emissões diretas de gases de efeito estufa provenientes de fontes de propriedade ou controladas pela empresa. Inclui, por exemplo, as emissões decorrentes de processos industriais realizados nos locais da empresa. Nesse grupo, também estão as emissões relacionadas à remoção vegetal, comum nas atividades da construção civil.
- Escopo 2 — Emissões indiretas de gases de efeito estufa provenientes da geração de eletricidade, calor ou vapor que a organização compra e consome.
- Escopo 3 — Emissões indiretas que ocorrem na cadeia de valor da empresa, fora das suas próprias operações. São usualmente as emissões mais significativas na construção civil devido ao elevado consumo de materiais adquiridos para o desenvolvimento das obras.
Como a construção civil acessa o mercado de carbono no Brasil?
Para construtoras e incorporadoras, existem dois caminhos principais para acessar esse mercado:
Geração de créditos
Uma construtora pode gerar créditos de carbono ao implementar projetos que resultem em redução mensurável, reportável e verificável de emissões, em comparação com um cenário de referência. Exemplos incluem:
- Uso de materiais com menos carbono incorporado (ex.: concreto com adições pozolânicas, aço reciclado);
- Construções com elevado desempenho energético e sistemas de energia renovável;
- Redução de resíduos e reaproveitamento de materiais no canteiro;
- Soluções de reflorestamento ou infraestrutura verde urbana.
Esses projetos precisam ser registrados, validados e verificados conforme metodologias reconhecidas, definidas pelo SBCE e órgãos competentes (como o Comitê Interministerial sobre a Mudança do Clima – CIM).
Compra de créditos
Construtoras que ultrapassarem suas cotas de emissão poderão adquirir créditos de terceiros no mercado regulado, por meio de plataformas autorizadas, ou, eventualmente, recorrer ao mercado voluntário, se houver reconhecimento mútuo. Essa compra poderá ser realizada por meio de leilões, bolsas de negociação ou contratos bilaterais.
Com a obrigatoriedade de contabilização e limitação de emissões imposta pelo SBCE, espera-se que o uso de créditos de carbono se torne um mecanismo estratégico para a construção manter sua competitividade e conformidade regulatória, além de reforçar seu posicionamento ESG.
Estruture estratégias de descarbonização e sustentabilidade com apoio especializado
Com a expertise de quem impulsiona transformações positivas no mercado há mais de trinta anos, o CTE desenvolveu uma ampla gama de serviços integrados para apoiar seus clientes em suas jornadas visando a neutralidade das emissões de carbono.
As soluções se aplicam às atividades empresariais, aos edifícios e aos projetos de escala urbana, com foco na redução de impactos ambientais adversos, na redução de custos operacionais e no aumento do valor dos ativos.
Entre em contato para saber como o CTE pode ajudá-lo em seus planos de descarbonização!


