Essencial para o enfrentamento das mudanças climáticas, o cumprimento das metas globais de redução de carbono não será alcançado apenas com as medidas aplicadas às novas construções. Estima-se que cerca de 70% dos edifícios que estarão em uso em 2050 já existem hoje. Isso significa que o futuro das cidades passa, inevitavelmente, pela requalificação de um vasto patrimônio já construído.
Nesse contexto, o retrofit ganha protagonismo. Mais do que uma simples modernização arquitetônica, ele tornou-se uma estratégia para ampliar o ciclo de vida das edificações, reduzindo-se, assim, as emissões de carbono provenientes dos materiais de construção e ainda revitalizando áreas urbanas já consolidadas.
Subutilizados, edifícios antigos localizados em regiões centrais das grandes cidades muitas vezes apresentam baixa eficiência energética, qualidade ambiental precária e alto índice de vacância. Ao serem retrofitados, ganham nova vida e valor, melhoram a qualidade ambiental interior, reduzem impactos ambientais e ajudam a conter o espraiamento urbano que pressiona áreas de proteção ambiental, a exemplo de espaços verdes e de mananciais
Vale lembrar que as cidades compactas — associadas a uma ocupação urbana mais densa e integrada — têm uma configuração urbana mais sustentável. Elas reduzem deslocamentos longos, aproveitam melhor a infraestrutura existente, diminuem as emissões de carbono per capita e favorecem o uso de modais de transporte coletivo e verde.
Evitar o espraiamento urbano é, portanto, um dos principais motivos para investir em retrofit. Cidades com baixa densidade populacional, grandes distâncias entre funções urbanas e forte dependência do transporte individual tendem a emitir mais carbono per capita do que cidades compactas. Em Nova York, por exemplo, onde há alta densidade urbana e transporte público massivo, a taxa de emissão de carbono por habitante/ano é três vezes menor do que em Chicago, cidade marcada por urbanização dispersa e grande dependência de veículos individuais motorizados.
Por que o retrofit vem ganhando destaque?
“Requalificar edifícios no centro das grandes cidades significa rever a dinâmica urbana, diminuindo deslocamentos pendulares e a pressão sobre áreas de proteção, além de colaborar para a mitigação das mudanças climáticas”, afirmou Rafael Lazzarini, diretor de Sustentabilidade no CTE, em palestra realizada durante o Retrofit 360º, evento promovido pelo Enredes, em São Paulo.
Entre os principais motivos para a mobilização do mercado em prol do retrofit está a diminuição do impacto ambiental da construção civil, setor responsável por um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Ao evitar demolições, o envio de entulho para aterros e o uso de materiais altamente intensivos em energia, como aço e concreto, o retrofit permite reduzir emissões de carbono de forma significativa.
Um estudo realizado pelo CTE com onze projetos comerciais certificados pelo processo LEED mostrou que é possível poupar até meia tonelada de CO₂ equivalente por metro quadrado em edifícios retrofitados. Além de ser uma solução sustentável, essa redução representa vantagem financeira, já que a compra de créditos de carbono tende a ter cada vez mais impacto no cálculo de viabilidade dos empreendimentos.
Certificações ambientais para projetos de retrofit
Certificações ambientais internacionais, como LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies), já reconhecem o valor do retrofit, premiando projetos que reaproveitam edifícios e incentivando a descarbonização.
No processo LEED, por exemplo, é possível somar de 1 a 5 pontos com o reúso de estruturas existentes, dependendo da porcentagem de manutenção do edifício. Já o EDGE, com foco na descarbonização, exige diminuição de consumo de água, energia e materiais em comparação a um edifício de referência.
“Em um projeto recente de conversão de hotel em edifício residencial, conseguimos reduzir em 91% as emissões de carbono incorporado aos materiais, mantendo a estrutura existente, quando comparado à construção de uma nova edificação. Apenas por preservar fundações, superestrutura, lajes e fachadas, o projeto superou as exigências da certificação EDGE quanto ao uso de materiais”, exemplificou Lazzarini.
Melhoria ambiental e eficiência
A modernização de edifícios antigos também se justifica pelos ganhos operacionais. Graças a avanços tecnológicos, como lâmpadas de LED, vidros seletivos e sistemas de climatização mais eficientes, os edifícios atuais consomem apenas metade da energia exigida por edificações da década de 1970.
Essas construções também apresentam uma qualidade ambiental superior, especialmente pela necessidade de atender regulamentações mais rigorosas que versam sobre qualidade do ar interno e desempenho térmico, acústico e lumínico.
Além disso, os projetos atuais têm a seu favor um vasto conjunto de tecnologias, com destaque para as simulações computacionais energéticas e lumínicas. Essas ferramentas permitem antecipar cenários ainda na fase de projeto, compatibilizando as soluções entre as diferentes disciplinas.
“Com elas é possível, de modo rápido e preciso, avaliar o isolamento de paredes, lajes, pisos e coberturas, os níveis de iluminância em diferentes horários e estações do ano, e compreender o impacto de variáveis como clima local, orientação solar, materiais da envoltória e ventilação. Daí a importância de aproveitarmos ao máximo essas ferramentas, na busca por soluções de projeto melhores, mais eficientes e econômicas”, sugeriu Lazzarini.
Para garantir melhor qualidade ambiental nos edifícios restaurados, recomenda-se também o uso do design biofílico, que promove a conexão dos usuários com a natureza. “Muitas ações de sustentabilidade não são facilmente perceptíveis para o usuário. Com a biofilia é diferente: ao introduzir o verde, valorizar materiais naturais e priorizar o bem-estar dos ocupantes, os projetos de retrofit reforçam a responsabilidade ambiental e agregam valor extra aos empreendimentos”, afirmou Lazzarini.O CTE desenvolve estratégias inovadoras para aprimorar o conforto ambiental das edificações, aplicando soluções de arquitetura bioclimática e sistemas prediais baseadas em análises paramétricas e simulações avançadas. Nosso objetivo é garantir ambientes mais saudáveis, produtivos e eficientes, agregando valor real a cada projeto. Fale conosco e descubra como podemos transformar seus espaços com inteligência e sustentabilidade!
Autor
Juliana Nakamura
Jornalista formada pela PUC-SP, com pós-graduação em Mídias Digitais. Com mais de vinte anos de experiência, atuou em diversos veículos de comunicação, como O Estado de S. Paulo, UOL, Editora Pini e Casa Vogue. Especializada na cobertura de temas ligados à construção civil, mercado imobiliário, arquitetura e urbanismo, também desenvolve conteúdo para entidades setoriais e empresas. Desde 2020, colabora com CTE.


