O desempenho acústico em edifícios residenciais deixou de ser apenas um detalhe técnico e passou a ser um fator essencial para a qualidade de vida. Ambientes silenciosos reduzem o estresse, melhoram o sono e garantem bem-estar, enquanto a exposição constante a ruídos pode provocar irritação, problemas de saúde e até conflitos entre vizinhos.
Além do conforto, o isolamento sonoro assegura privacidade e se tornou indispensável em tempos de home office, quando a concentração e a produtividade dependem de ambientes tranquilos. A questão também envolve saúde pública, já que ruídos prolongados podem causar perda auditiva e distúrbios psicológicos.
No Brasil, o tema ganhou força com a ABNT NBR 15575, norma que estabelece requisitos mínimos de desempenho acústico em habitações.
O que é a Norma de Desempenho?
Publicada em 2013, a ABNT NBR 15.575 Edificações habitacionais – Desempenho é uma das principais referências técnicas que orientam a construção de moradias no Brasil.
O texto estabelece requisitos mínimos relacionados à segurança, habitabilidade e sustentabilidade para casas e edifícios habitacionais.
De atendimento obrigatório, a Norma de Desempenho cumpre um papel importante, não somente ao estabelecer requisitos e critérios mínimos de comportamento da edificação para atender às necessidades dos usuários. O não atendimento à NBR 15.575 pode motivar complicações para o proprietário do empreendimento nas esferas civil e criminal, além de ser motivo de insatisfação do cliente, colocando em risco a reputação da construtora e da incorporadora.
O que a NBR 15575 exige em acústica?
Em relação ao desempenho acústico em edifícios residenciais, a Norma de Desempenho determina:
- Isolamento de ruídos externos — A edificação deve reduzir a entrada de sons provenientes do tráfego urbano, vizinhança e outras fontes externas.
- Isolamento entre unidades habitacionais — As paredes e pisos devem atenuar sons de impacto (como passos, arrastar móveis) e sons aéreos (como vozes, música, TV).
- Ruídos de sistemas prediais — Instalações hidráulicas, elevadores e outros equipamentos devem ser projetados para não gerar incômodo acústico dentro das unidades.
- Desempenho mínimo, intermediário e superior — A norma define três níveis de desempenho, permitindo que construtoras busquem padrões mais elevados de conforto acústico além do mínimo exigido. É importante frisar que o atendimento aos requisitos mínimos não garante conforto acústico. É preciso avaliar cada empreendimento e o nível recomendado de atendimento conforme a demanda do cliente e usuários finais.
- Ensaios e medições — O atendimento aos requisitos deve ser comprovado por testes técnicos, como medições de isolamento sonoro e níveis de pressão sonora.
Aspectos críticos no atendimento à Norma de Desempenho
Segundo Andrea Destefani, consultora de acústica no CTE, há alguns desafios a serem superados para que o projeto garanta isolamento acústico adequado e conforto aos seus ocupantes. Entre eles, ela destaca:
Local onde o empreendimento está inserido
Em cidades grandes ou mais adensadas, o ruído de trânsito e de aeronaves é bastante proeminente e afeta diretamente as fachadas e esquadrias das edificações. Outras fontes sonoras podem ser terminais multimodais, estádios, áreas de eventos e canteiros de obra.
Para minimizar o efeito da paisagem sonora, a implantação da edificação deve ser pensada, desde o início do processo de projeto. O objetivo é reduzir o efeito das ondas sonoras nas janelas dos ambientes mais sensíveis, como dormitórios e salas.
“Janelas e portas acústicas podem ser aplicadas para barrar, ao máximo, o ruído externo. No entanto, estes elementos apresentam limitações para isolamento acústico devido à sua pouca espessura e densidade superficial, em comparação com vedações cegas e pesadas, como alvenarias”, explica Destefani.
Áreas comuns e de lazer
Outro desafio diz respeito à localização de áreas comuns de lazer. Em muitos casos, a dimensão do terreno leva os projetistas a posicionarem piscinas, quadras, academias e outros espaços comuns sobre unidades residenciais.
Andrea Destefani afirma que para solucionar as transmissões sonoras aéreas e de impacto, é necessário aplicar o desacoplamento dos sistemas de piso, por meio de lajes ou contrapisos flutuantes, por exemplo.

Elevadores e casas de máquinas
Outra questão que costuma gerar reclamações dos usuários é o posicionamento de elevadores ou das áreas técnicas adjacentes aos apartamentos. Equipamentos mecânicos podem emitir ruídos tonais e/ou intermitentes, além de vibrações que possivelmente serão transmitidas para vedações e pisos, gerando incômodos aos ocupantes. É preciso tomar algum cuidado também com shafts e aberturas de ventilação em casas de máquinas.
“O ideal é distanciar, ao máximo, as áreas técnicas e poços de elevadores das unidades residenciais. Além disso, existem soluções como bases antivibratórias, que desacoplam os motores do restante da edificação, minimizando as transmissões sonoras”, recomenda a consultora do CTE.
Instalações prediais
Por fim, é preciso atentar para as instalações elétricas e hidráulicas nas paredes de geminação entre unidades residenciais distintas.
Para evitar as denominadas “pontes acústicas”, é preciso verificar, ainda em fase de projeto, a localização e o dimensionamento das instalações, para não ocorrerem perdas de performance por conta de caixas elétricas, quadros ou tubulações. É importante distanciar e revestir esses elementos para que o desempenho da vedação seja mantido ao máximo.
Como melhorar a acústica em apartamentos?
Para garantir o atendimento aos requisitos de isolamento acústico previstos na norma, é fundamental adotar estratégias específicas nas fases de projeto e execução da obra. Isso envolve a escolha criteriosa de materiais para paredes, pisos e tetos, considerando suas propriedades de desempenho sonoro.
O planejamento arquitetônico também desempenha papel essencial. É necessário evitar pontos de transmissão direta de ruídos entre ambientes distintos, como áreas sociais e dormitórios. Além disso, é importante avaliar a posição de áreas técnicas e de lazer em relação às unidades habitacionais, reduzindo potenciais fontes de incômodo.
“Quando necessário, ajustes adicionais podem ser realizados durante a construção para assegurar o cumprimento dos padrões estabelecidos. O controle de qualidade em obra é indispensável para garantir que o desempenho projetado seja efetivamente alcançado”, destaca Andrea Destefani.
Em parceria com Erica Martins, Destefani elaborou o e-book “Norma de Desempenho: como atender aos requisitos de desempenho térmico, lumínico e acústico”, uma publicação didática e objetiva disponível para download gratuito.
O CTE oferece um portfólio completo de soluções, incluindo simulações e consultoria integrada, para apoiar projetos que buscam excelência no atendimento às exigências de desempenho térmico, lumínico e acústico conforme a Norma de Desempenho. Entre em contato e descubra como elevar a qualidade das edificações a novos patamares.
Autor
Andrea Destefani
Arquiteta Urbanista formada pela Unicamp, com mestrado em Tecnologia de Edificações pelo IPT e MBA em gestão de negócios pela USP. Com mais de 12 anos de experiência profissional contemplando atividades nas áreas técnica e comercial em conforto ambiental para o ambiente construído. Acredita na postura colaborativa e construtiva, trabalho engajado em equipe e está sempre em busca de conhecimento, assim como aprimoramento pessoal e profissional.



