Em síntese:
- A quantificação de emissões de carbono é o ponto de partida para qualquer organização que deseja se adequar às exigências setoriais, às práticas ESG e às novas regulamentações do mercado regulado de carbono.
- A ACV possui maior profundidade científica e avalia múltiplos impactos ambientais (não apenas carbono) aplicados a um produto, edificação ou serviço, acompanhando todas as fases de sua existência.
- Já o inventário de carbono quantifica os gases de efeito estufa e é ideal para avaliar o impacto global de organizações e empresas.
- A aplicação dessas ferramentas permite identificar e corrigir os maiores gargalos ambientais dos projetos, cumprir requisitos normativos e legais, pontuar para a obtenção de certificações e valorizar ativos.
Em uma jornada rumo à descarbonização, o primeiro passo a ser dado por qualquer organização deve ser quantificar suas emissões de carbono. Nesse contexto, surgem como opções a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) e os inventários de carbono.
Ambas as ferramentas são estratégicas para quem quer estar alinhado com a agenda ESG (Environmental, Social and Governance) e com mudanças recentes, como a criação do mercado regulado de carbono.
O que é a Avaliação de Ciclo de Vida?
Dedicada a quantificar impactos em geral, não apenas carbono, a ACV analisa aspectos ambientais e impactos potenciais positivos e negativos ao longo da vida de um produto ou serviço.
No caso das edificações, a Avaliação de Ciclo de Vida abarca todas as etapas de produção e uso, desde a extração das matérias-primas que darão origem aos materiais de construção, passando pelas fases de projeto, obra e operação, até a disposição final, reciclagem e reúso.
Qual é a diferença entre ACV e inventário de carbono?
Também conhecido como inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE), o inventário de carbono consiste em um processo de avaliação e quantificação das emissões, que permite mensurar a pegada de carbono associada a uma determinada atividade, setor econômico, organização ou região geográfica.
O objetivo é identificar e quantificar as fontes emissoras, permitindo que medidas sejam tomadas para reduzi-las.
Atualmente, a metodologia de inventário mais utilizada é a do GHG Protocol, que classifica as emissões de carbono em três escopos.
- Escopo 1 — Aborda as emissões sobre as quais a empresa possui responsabilidade direta e controle.
- Escopo 2 — Inclui todas as emissões indiretas relacionadas ao consumo de energia.
- Escopo 3 — Compreende as emissões sobre as quais a empresa não exerce controle direto, como as geradas na fabricação dos insumos por seus fornecedores.
Adriana Hansen, diretora de Sustentabilidade do CTE, explica que o GHG Protocol foca nos gases causadores de efeito estufa citados no Protocolo de Quioto.
Porém, estes não são os únicos causadores das mudanças climáticas. Ela destaca que, em função de suas características, os inventários de carbono são indicados para quantificar o impacto corporativo das empresas (CNPJs). Na comparação com o inventário de carbono, a ACV possui um nível de profundidade científica maior.
“O inventário não tem a finalidade de avaliar todos os aspectos de uma atividade sobre seus impactos ambientais. Seu objetivo é quantificar parte das ações envolvidas relacionadas ao carbono emitido, seguindo protocolos específicos. Por isso, a ACV acaba sendo mais adequada para compreender o impacto total de objetos ou serviços, como empreendimentos e obras”, esclarece Hansen.
Por que as empresas devem se mobilizar para produzir ACVs?
Muitos motivos justificam a aplicação das Análises de Ciclo de Vida. Entre eles:
- Possibilidade de comparar o projeto proposto com a prática atual do mercado.
- Compreender e identificar quais são os maiores impactos ambientais de um projeto para estruturar ações de melhoria.
- Atendimento a questões regulatórias. Há órgãos e regulamentações que orientam a realização da ACV, como as leis de resíduos sólidos e de licitações, além de referenciais como a ISO 20400 (compras sustentáveis) e ISO 14001 (sistema de gestão ambiental), bem como o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial). Ao permitir quantificar as emissões associadas a projetos, materiais e processos construtivos, a aplicação das ACVs, assim como dos inventários de carbono, é um passo fundamental para as empresas acessarem o mercado regulado de carbono.
- Valorização dos ativos. Negócios que têm sistemas de responsabilidade estendida implementados tendem a se posicionar melhor em um mercado cada vez mais rigoroso com questões relacionadas ao ESG.
- Obtenção de certificações ambientais. No caso do LEED, o simples fato de calcular os impactos por meio de uma ACV é suficiente para somar um ponto no processo de obtenção do selo.
Quais são as etapas de preparação de uma ACV?
A produção de uma análise de ciclo de vida é regida por normas internacionais, como a ABNT NBR ISO 14040: Gestão ambiental – Avaliação do ciclo de vida. Ela envolve quatro etapas principais:
Definição de objetivo e escopo
Garante que o estudo seja claro, relevante e útil. É nessa etapa que são estabelecidas as fronteiras do sistema, ou seja, em que ponto deve começar e terminar a ACV.
Esse limite pode ser “do berço ao túmulo”, quando se avalia o impacto ambiental de um produto, serviço ou processo em todas as etapas da sua existência. Essa abordagem inclui desde a extração das matérias-primas (berço), passando pela fabricação, distribuição, uso e descarte ou reciclagem (túmulo).
A fronteira pode ser, ainda, do “berço ao berço” (cradle to cradle). Nesse caso, em vez de encerrar o ciclo de vida de um produto no descarte ou reciclagem, a ideia é ter um sistema circular, no qual os materiais são projetados para serem reutilizados indefinidamente, como em ciclos naturais.
Análise do inventário de ciclo de vida
É um procedimento sistemático, gradual e objetivo para quantificar os fluxos de materiais e energia no ciclo de vida. Tais fluxos incluem as entradas de energia, água e matéria-prima e as saídas para o ar, terra ou água. Essa fase resulta em uma planilha que reúne uma grande variedade de dados que alimentarão a etapa seguinte.
Avaliação de impactos
Mede os efeitos ambientais, como emissões de dióxido de carbono (CO₂), toxicidade, uso de recursos naturais etc. A avaliação inclui a categorização dos efeitos e, frequentemente, pode demonstrar que o mesmo elemento gera diferentes tipos de impactos. Emissões gasosas, por exemplo, podem não apenas afetar a camada de ozônio, como também contribuir para as mudanças climáticas e para a formação fotoquímica de ozônio.
Interpretação
A ACV é concluída com a interpretação dos resultados e com as discussões sobre a avaliação de impactos em função do escopo do estudo. Nesse momento, é possível também identificar oportunidades de evolução nos processos visando à redução de impactos ambientais.
Impulsione a descarbonização do seu negócio com o CTE
O CTE atua em diferentes frentes, seja auxiliando os empreendedores no desenvolvimento de produtos com melhor desempenho ambiental, seja apoiando a indústria de materiais em suas jornadas para a redução de emissões.
No portfólio de serviços, destacam-se a elaboração de inventários de Gases de Efeito Estufa (GEE) das atividades corporativas e de construção, bem como o desenvolvimento de ACVs para produtos e empreendimentos. Fale conosco para conhecer soluções para apoiar sua empresa na jornada de descarbonização!
Jogo rápido: perguntas frequentes sobre ACV
O que é a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV)?
É uma metodologia padronizada para mensurar os potenciais impactos ambientais de um produto, processo ou serviço ao longo de todas as etapas de sua existência, da extração das matérias-primas até o descarte ou reciclagem final.
Quais são as principais abordagens de escopo em uma ACV?
A delimitação da análise varia conforme o objetivo do estudo:
- Berço ao túmulo (Cradle-to-grave): Avalia todo o ciclo, da extração dos recursos naturais ao descarte final.
- Berço ao portão (Cradle-to-gate): Considera as etapas desde as matérias-primas até a saída do produto pronto da fábrica.
- Berço ao berço (Cradle-to-cradle): Foca na economia circular, em que o fim da vida útil do produto alimenta a produção de um novo item.
Quais normas internacionais regulamentam a ACV?
O método segue as normas da família ISO 14000:
- ISO 14040: Define a estrutura geral, os princípios e os conceitos fundamentais.
- ISO 14044: Especifica os requisitos técnicos e diretrizes detalhadas para a condução e validação do estudo.
Como a ACV ajuda a combater o greenwashing?
Por ser baseada em dados científicos auditáveis, a ACV impede alegações ambientais vagas. Ela garante que a sustentabilidade de um produto seja comprovada matematicamente em vez de ser usada apenas como discurso de marketing.
Qual é o papel da ACV nas certificações ambientais (LEED, AQUA-HQE, EDGE)?
As principais certificações concedem pontuações diretas para projetos que comprovam a redução de impactos ambientais por meio de uma ACV da edificação (comparando o projeto com um prédio de referência) ou pelo uso de materiais que possuem Declarações Ambientais de Produto (DAPs).
Qual é a diferença entre carbono operacional e carbono incorporado?
O carbono operacional refere-se às emissões de gases de efeito estufa geradas durante a fase de uso e ocupação de uma edificação ou infraestrutura. Já o carbono incorporado abarca todas as emissões geradas pelos materiais e processos construtivos ao longo da cadeia de valor, desde a extração das matérias-primas, fabricação de componentes, transporte e fase de obra, até a manutenção, reformas e descarte ou demolição final.


