Banho de sangue na Gafisa marca início da era Mu Hak

A gestora GWI, que tem o controle de fato da Gafisa, demitiu na sexta (28) quase toda a diretoria da incorporadora e instalou Ana Recart como CEO.

Foram desligados o CEO Sandro Gamba, o CFO Carlos Calheiros, e o diretor executivo operacional Gerson Cohen.

Recart, uma advogada da área imobilária da GWI há cerca de oito anos, também assumiu de forma interina os cargos de CFO e RI. A diretoria operacional passa a ser ocupada pela atual gerente jurídica da GWI, Karen Sanchez Guimarães, que também era conselheira da Gafisa representando a gestora.

Num Fato Relevante, o conselho da Gafisa disse que as demissões fazem parte "do processo de turnaround e de adequação e otimização da estrutura corporativa".

Outros dois diretores não estatutários também foram demitidos: Guilherme Sartori (operações) e Rodrigo Borghi (construção), segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Três diretores estatutários foram mantidos: o de incorporação, Guilherme Carlini - um veterano com nove anos de casa -, o de vendas, Lucas Tarabori, e o de construção, Luciano do Amaral.

A companhia também decidiu fechar sua filial do Rio e mudar sua sede - hoje em frente ao Shopping Eldorado - para São Caetano do Sul, onde a Gafisa tem um prédio de salas comerciais.

Ao trocar abruptamente o 'management' num negócio que depende de reputação e relacionamentos, a Gafisa arrisca alienar bancos e parceiros comerciais, além de gerar insegurança na cultura interna.

O risco é que a intempestividade das mudanças interrompa o bom momento operacional pelo qual a empresa está passando: a Gafisa tem apresentado a melhor velocidade de vendas entre as incorporadoras de renda alta e média e caminha a passos largos para zerar seu prejuízo trimestral até o fim do ano.

O avanço da GWI coloca uma das maiores incorporadoras brasileiras nas mãos de Mu Hak You, o controverso fundador da GWI. Em maio de 2017, a CVM suspendeu por cinco anos a licença de gestor profissional de Mu Hak.

O movimento de hoje vem depois que a GWI, que tem 37% do capital da Gafisa, conseguiu esta semana a destituição do conselho eleito em abril. Agora, a GWI tem cinco dos sete assentos do conselho. A GWI é conhecida por um portfólio concentrado e, por operar alavancada, já teve que liquidar posições na bacia das almas em mais de uma ocasião; suas derrocadas mais célebres incluem Lojas Americanas e Marfrig.

No começo do ano, Mu Hak propôs aumentar o 'poison pill' da Gafisa - o nível de participação acionária que dispara a obrigação de uma oferta a outros acionistas - de 30% para 50%. O conselho concordou. Mu Hak tem dito privadamente que confia na companhia e pretende chegar a 49,9% do capital.

A Gafisa vale R$ 500 milhões na Bolsa e tem uma dívida líquida de cerca de R$ 700 milhões. O fundo americano Wishbone - um pequeno 'pocket' de uma gestora de US$ 30 bi - tem reduzido consistentemente sua posição, e Mu Hak tem absorvido as vendas.

Brokers acreditam que Mu Hak hoje responda por 80% do volume do papel, que negocia cerca de 1 milhão de ações por dia.

Por Geraldo Samor...

Fonte: Brazil Journal, Negócios, 28/09/2018