Autofinanciamento é o maior segredo da Saint-Gobain

 

Há cerca de dois anos, o prestigiado museu francês D3Orsay preparou uma exposição sobre o grupo Saint-Gobain, intitulada: "Uma empresa face-a-face com a história". Com 342 anos de vida, o grupo Saint-Gobain testemunhou a glória e a queda da monarquia, a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas e a Revolução Industrial. Passou por várias fusões e foi estatizado em duas ocasiões. Superou as mudanças e crises em uma posição invejável: o grupo está entre os líderes globais nos mercados de vidros, materiais de construção, cerâmicas e abrasivos e, no Brasil, é dono da Vidraria Santa Marina, Quartzolit, Brasilit e TelhaNorte, entre outros negócios. O Saint-Gobain, assim, serve como um benchmark para todas as empresas que desejam perdurar. 

Davilym Dourado/valor

Guillot: "Parte importante do trabalho é pegar ações de fora e aperfeiçoá-las"
 

A companhia foi fundada em 1665, por ordem do rei Luis XIV, o Rei Sol, que não se conformava em ver a sua imagem refletida em espelhos estrangeiros. A primeira tarefa da então Manufacture Royale de Glaces de Miroirs foi construir a suntuosa Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes. 

 

A França não tinha experiência no ramo. Na época, era Veneza que liderava a fabricação global de vidros e espelhos. O ministro das finanças francês, Jean-Baptiste Colbert, encontrou uma solução para esse desafio que a companhia enfrentou. Contratou mão-de-obra veneziana, o que levou a um clima de animosidade entre os dois países. Quem aceitava o convite de Colbert era considerado pela República de Veneza traidor da pátria. A desavença não teve conseqüências sérias e o negócio de espelhos francês logo floresceu. 

 

As lições iniciais ficaram na memória. "Não temos preconceito na busca pelo conhecimento", diz Laurent Guillot, delegado-geral para Mercosul e Chile. "Nem sempre a inovação é interna, parte importante do nosso trabalho é pegar ações de fora e aperfeiçoá-las." 

 

Graças a uma tecnologia adquirida externamente, o Saint-Gobain obteve a liderança no processo de fazer vidros que durou quase dois séculos e meio. Antes de 1680, a técnica dominante era a do vidro soprado, que não se adequava bem à fabricação de vidros planos. Com o novo processo, a matéria-prima passou a ser manipulada sobre uma mesa de aço. No Brasil, o grupo adquiriu, no início do século XX, um processo para fazer tubos de ferro fundido por centrifugação, que ainda hoje é dominante. 

 

A base do negócio do Saint-Gobain sempre foi a tecnologia e, por isso, desde o século XVII, a companhia desenvolveu uma política para reter talentos. Até foi criado um verbo, "gobinar", para quem trabalha no grupo. Muitos funcionários da empresa nunca atuaram em outra corporação -- uma característica rara nos dias de hoje. "Recrutamos poucos executivos de fora do grupo", afirma Guillot. Há um grupo de funcionários que cuida dos arquivos históricos, de forma a manter viva a trajetória do Saint-Gobain. Os empregados se orgulham de trabalhar em uma empresa que construiu, por exemplo, a pirâmide do Louvre. 

 

Outro aspecto que tem ajudado a é o fato da companhia ter capital pulverizado desde o século XVIII. Na maior parte da história da corporação, as ações estiveram divididas entre três ou quatro acionistas. O Saint-Gobain foi mudando de donos, mas isso em nada atrapalhou a sua gestão. "Os membros do board enfrentavam uma questão de legitimidade: tinham que escolher a pessoa com mais mérito no momento para liderar as operações", explica o delegado-geral para Mercosul e Chile. "Ainda assim, os acionistas sempre acompanharam de perto os negócios." 

 

Desde o início, acionistas e gestores foram muito ligados ao mundo político europeu. Ocuparam cargos no governo, como o próprio Guillot, que trabalhou nos ministérios das Finanças e dos Transportes. "Na França, o Estado é o grande formador de administradores", afirma Guillot. "A vantagem é que temos contato com pessoas de visão mais ampla." Segundo o consultor Arie De Geus, especialista em longevidade corporativa, as empresas excessivamente orientadas para dentro acabam descuidando do que ocorre no mundo e não conseguem antecipar mudanças de cenário. 

 

O Saint-Gobain, que nasceu como símbolo dos bens de luxo, sentiu que o mundo estava se modificando no século XVIII e que, com a Revolução Industrial, bens antes acessíveis apenas aos nobres poderiam ser comprados por uma massa de consumidores. Assim, criou uma linha de qualidade inferior para atender ao mercado emergente, como a construção civil, sem deixar o público de alta renda. O grupo teve um papel importante na construção de símbolos como o Fórum Les Halles, em Paris, e o Palácio de Cristal, em Londres. 

 

No grupo credita-se a longevidade à sua cultura peculiar, capaz de absorver novas tecnologias e antecipar cenários, e também, ao conservadorismo financeiro. "Nossa gestão financeira é muito prudente. A regra do grupo é o autofinanciamento, nunca operamos alavancados", diz Guillot. 

 

Em tempos de crise como o que estamos vivendo, essa é uma vantagem e tanto. "A nossa situação nos dá tranqüilidade. Vamos ficar e fazer o que sempre fizemos: alguns ajustes e novos investimentos", afirma o delegado-geral. O segredo, diz ele, é dosar o curto prazo com o longo prazo. "Focamos no valor ao acionista, afinal, temos ações na bolsa de valores. Mas olhamos o retorno dos nossos investimentos com uma visão de longo prazo."