Visão gerencial, domínio técnico e habilidades humanas: aliança para o sucesso na condução das obras

O engenheiro de obras, em suas funções diárias, se relaciona com vários agentes, pessoas e grupos de profissionais da cadeia de produção, o que exige muito “jogo de cintura” para evitar conflitos e contornar os elos mais críticos destas relações. Acompanhe a conversa com Renata Souto, Gerente da Unidade de Gerenciamento de Projetos e Obras do CTE, sobre as habilidades que o engenheiro deve ter para que essas relações ocorram de maneira produtiva e determinem a boa gestão da obra.
 
O engenheiro de obras, no seu dia a dia, interage com vários agentes públicos, profissionais da cadeia de produção, grupos diversos de pessoas, colegas da própria empresa. Com quem exatamente o engenheiro de obras se relaciona hoje?

A gama de relacionamentos do engenheiro de obras durante a gestão e execução da obra é realmente grande. Para se ter uma ideia dessas relações, podemos listar os vários públicos com que o engenheiro interage diretamente e em diferentes momentos da obra. Por exemplo, com:

Fornecedores de materiais e equipamentos
Empreiteiras de mão de obra
Equipe administrativa da obra (encarregados, mestre de obra, administrativo, arquitetos, etc.)
Equipe de produção da obra
Equipe de segurança do trabalho e meio ambiente
Equipe do sistema de gestão da qualidade
Equipe de planejamento e controle da obra
Projetistas e consultores
Sindicatos
Órgãos públicos e fiscalizadores: Prefeitura, Corpo de Bombeiros, Concessionárias de Serviços Públicos, Delegacia Regional do Trabalho, Órgãos Ambientais (DEPRN, DEPAVE, CETESB, etc.), Órgãos Reguladores de Trânsito, Órgãos de Patrimônio Histórico, etc.
Equipe da administração central da construtora (departamento financeiro e de custos, área de tecnologia da informação, departamento jurídico, departamento de suprimentos, departamento comercial, etc.)
Empresa de vendas e consultoria imobiliária
Clientes proprietários das unidades vendidas
Clientes investidores
Administradora do condomínio

O engenheiro de obras é hoje o responsável pela relação com todos esses públicos, o que não significa que ele esteja ciente e preparado para ser o centro das interações entre todos, que é fundamental para a percepção global e integração de todos os processos e a tomada de decisões assertivas, evitando problemas futuros no andamento da obra, por exemplo.

Em sua opinião e pela sua observação, quais são os elos mais críticos desta relação, aqueles que costumam gerar mais conflitos?

Acredito que hoje temos quatro elos críticos dentre os diversos tipos de relação do engenheiro com os vários públicos.

Um deles está na relação com os fornecedores de mão de obra e a área de produção, em especial com os empreiteiros de mão de obra, que, face ao aquecimento do mercado, têm disponibilizado equipes pouco qualificadas e de baixa produtividade, o que tem resultado em atrasos na execução da obra e má qualidade dos serviços.

Outro ponto crítico se concentra na área de suprimentos da construtora, com a qual há o constante conflito no atendimento do cronograma de materiais e serviços definido no planejamento que, diante do crescimento do mercado, tem apresentado problemas de fornecimento dentro dos prazos e qualidade pactuados.

Há também problemas com as áreas de planejamento e controle de obras, áreas financeira e de custos e de tecnologia da informação da empresa, já que nesta relação há conflitos de informações solicitadas pelos departamentos centrais da empresa, que em geral estão incorporadas em softwares de gestão, nem sempre de fácil entendimento e manuseio por parte do engenheiro, em especial nos aspectos de progresso físico e de custos incorridos e a incorrer.

Por último, há o relacionamento com o cliente final. Em especial na fase de entrega das unidades, quando são gerados conflitos entre cliente e engenheiro, no que se refere ao atraso das obras e aceitação da qualidade final dos acabamentos e revestimentos, pois o cliente está cada vez mais exigente quanto ao recebimento e estressado por conta dos atrasos de obra.
 
Como o engenheiro deve agir, e que habilidades deve ter, para que essas relações ocorram de maneira saudável e determinem a produtividade e o bom gerenciamento da obra?

Podemos dizer que o engenheiro de obra deve exercer o papel de um Gerente de Projeto e ter uma visão sistêmica, considerando, no caso, que o Projeto seria o próprio empreendimento no sentido mais amplo. Por isso, o engenheiro precisa exercer uma liderança reconhecida e ser grande negociador, já que ele será o centro das interações entre a obra e todas as partes interessadas e executoras e 90% do seu tempo será, portanto, dedicado à comunicação com todos os envolvidos.

Sendo assim, o engenheiro deve ter talento para gerenciar expectativas e atender às diferentes necessidades das pessoas e equipes, resolvendo as questões à medida que ocorrem. Ou seja, deve ter conhecimento e informações de todo o projeto e processo do empreendimento, coletando e gerando informações, distribuindo-as e organizando, de maneira oportuna e apropriada com cada equipe com a qual interage.

Os problemas que surgem no dia a dia não podem ser solucionados apenas pelo seu conhecimento técnico, mas exigem habilidades humanas. Muitos dos problemas críticos se referem ao universo das pessoas, e por isso o engenheiro deve trabalhar para conseguir a cooperação e compreensão das equipes.

A comunicação do engenheiro com todos com quem se relaciona deve ser clara e objetiva, com consciência de que ele estará lidando com uma diversidade grande de pessoas, níveis de conhecimento e expectativas variados e ainda execuções e resultados também diversificados.

Além disso, é importante que ele tenha a visão global do empreendimento, saiba das condições contratuais e de financiamento, dos custos e prazos previstos, do projeto e das especificações, dos fornecedores e dos suprimentos, enfim, que tenha em mente os resultados esperados daquele empreendimento.

O conhecimento e familiaridade com as inovações tecnológicas, o domínio de metodologias de planejamento e controle de obra, assim como das ferramentas de gestão da qualidade, segurança, meio ambiente e sustentabilidade e das de TI serão também fundamentais para que haja integração e conhecimento dos processos. Essas habilidades lhe trarão condições de planejar, controlar, corrigir e de prover medidas em tempo hábil para evitar o que hoje ocorre com gravidade no mercado: atraso na entrega da obras, elevação de custos e falta de qualidade.

 

  * Renata Souto é Gerente da Unidade de Gerenciamento de Projetos e Obras do CTE. Engenheira Civil e Mestre em Engenharia pela Escola Politécnica da USP. Auditora Líder ISO 9001 pela Fundação Carlos Alberto Vanzolini da USP. MBA em Gestão de Projetos pelo Instituto Mauá de Tecnologia. Especialista em Gestão da Qualidade na Construção e Gerenciamento de Projetos e Obras.