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PERFIL | Rafael Lazzarini

1 de dezembro de 2020

A busca pelo equilíbrio

Arquiteto e urbanista, especializado em eficiência energética e conforto ambiental, Rafael Lazzarini é diretor da Unidade de Sustentabilidade do CTE. Nessa entrevista, ele fala sobre sua carreira e sobre como vem evoluindo a sustentabilidade nas edificações no Brasil. Ele também conta sobre sua ligação com a natureza e compartilha sua visão para o futuro. Confira!

Você poderia comentar a sua trajetória profissional? É verdade que a sua vocação para o trabalho com a sustentabilidade vem de berço?

Minha família é composta por muitos agrônomos. Tenho avô, pai, mãe e tios agrônomos. Meu pai foi para o lado ambiental e acabou construindo uma carreira política, sempre com a bandeira do meio ambiente. Hoje ele atua em consultoria ambiental. A minha mãe é uma das principais articuladoras da sociedade civil pela criação do Código de Defesa do Consumidor. Ela dirigiu o Procon e fundou, com outras lideranças, o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

Com tantos agrônomos na família, você acabou escolhendo a arquitetura como carreira?

Eu sempre gostei de meio ambiente, mas também me interessava por arquitetura e por tecnologia. No princípio essas coisas pareciam desconectadas. Quando entrei na faculdade em 1994, o tema sustentabilidade não era tão abordado. Nós não éramos estimulados a pensar sobre os impactos das decisões de projeto. Foi quando fiz a especialização sobre eficiência energética que as coisas finalmente se encaixaram. Ali percebi que arquitetura, tecnologia e meio ambiente são absolutamente integrados.

De que forma o CTE entrou na sua vida?

Eu abri um escritório com dois sócios para desenvolver projetos sustentáveis. A gente queria certificar um projeto e entrou em contato com o CTE. Pouco tempo depois, deixei essa sociedade porque o negócio não estava dando muito certo. O pessoal do CTE, sabendo que eu já tinha especialização na área, me convidou para integrar a equipe. Isso foi em 2007. Quando cheguei, a unidade de sustentabilidade era composta por seis pessoas. Vimos um crescimento exponencial dessa área na sequência. Hoje somos mais de 50 profissionais.

Como foi esse início?

Foi bastante desafiador. Durante cerca de um ano e meio, tivemos que estudar profundamente os guias de sustentabilidade para desenvolver as  metodologias de trabalho e criar as referências. No começo havia muito desconhecimento do mercado. Questionava-se, por exemplo, sobre a aplicabilidade de normas internacionais no Brasil. Conseguimos mostrar que essas referências tinham um embasamento técnico importante e uma conceituação que poderia ser aplicada em todo lugar do mundo com algumas adaptações. Os projetistas, por sua vez, foram percebendo que a consultoria ajudava a melhorar o trabalho deles. O mercado amadureceu e várias barreiras decorrentes da falta de conhecimento foram derrubadas.

Em que estágio estamos no Brasil com relação à sustentabilidade das edificações?

Avançamos muito quanto à tecnologia. Os softwares para análise e simulações, por exemplo, estão muito mais acessíveis. Também evoluímos com relação às certificações. Se no início o mercado estava restrito a edifícios comerciais, hoje já vemos certificações voltadas para outras tipologias de projeto. Por outro lado, faltam politicas públicas para incentivar soluções sustentáveis, como a energia alternativa. Isso ajudaria bastante no payback dessas tecnologias. Se a prefeitura criasse um incentivo para aumentar a área de drenagem dos terrenos, ela renunciaria a uma parte do IPTU, mas economizaria com a construção de piscininhas contra enchentes.

“Faltam politicas públicas para incentivar soluções sustentáveis, como a energia alternativa. Isso ajudaria bastante no payback dessas tecnologias”.

O que mais te satisfaz no seu trabalho?

Gosto de poder conciliar uma visão desenvolvimentista com o viés da sustentabilidade. Eu não concordo com essa ideia de ou conserva, ou desenvolve. Uma coisa não joga contra a outra. É desafiador, mas é bem possível ter desenvolvimento de forma sustentável, com equilíbrio.

O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?

Sou fã de esportes de água, gosto de surfar e de windsurf. Também curto pedalar, fazer trilha. No ano passado, comecei a jogar tênis. Eu adoro estar com meus dois filhos. Ambos gostam de estar junto à natureza e são bastante aventureiros.

Rafael Lazzarini na pedra do Baú em Campos do Jordão

O que você almeja para o futuro?

Acredito na ideia de que as questões de desenvolvimento pessoal e profissional precisam estar alinhadas. Não faz sentido ser um super profissional e ter a vida familiar e a saúde deterioradas. Eu acredito muito em um desenvolvimento integral do ser humano, envolvendo trabalho, saúde e qualidade de vida. Aliás, a sustentabilidade está cada vez mais voltada para isso.

O foco no bem-estar das pessoas é uma tendência?

A arquitetura regenerativa é uma tendência forte. Falamos muito sobre reduzir impactos das nossas atividades no ambiente, seja consumindo menos água, seja diminuindo a demanda por energia. Mas essa é uma visão limitada da sustentabilidade. Em vez de buscar minimizar impactos negativos, o foco deveria ser gerar impactos positivos. Estou falando de uma arquitetura que contribua para regenerar espaços e que sirva de âncora para o desenvolvimento do entorno. Esse parece ser o caminho.

“Em vez de buscar minimizar impactos negativos, o foco deveria ser gerar impactos positivos. Estou falando de uma arquitetura que contribua para regenerar espaços e que sirva de âncora para o desenvolvimento do entorno”.

Na Unidade de Sustentabilidade, você lidera um grupo heterogêneo. Que conselho você pode dar a essas pessoas, sobretudo para os jovens?

A gente trabalha com uma diversidade de perfis e cada um contribui de uma forma.  Os jovens, por exemplo, tendem a ter mais facilidade para trabalhar com ferramentas digitais, enquanto os mais sêniores adicionam análise critica, resiliência e entendimento. O mais importante é valorizar os aspectos positivos das pessoas e fortalecer as suas potencialidades. Se eu fosse dar um conselho, eu diria para as pessoas buscarem se autoconhecer e focar naquilo que elas agregam mais valor. Identificando preferências, potencialidades e habilidades é possível buscar uma carreira mais em sintonia com essas características.

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