Alojamento em Tocantins disputa troféu britânico

"O luxo é a sombra." A frase do arquiteto Gustavo Utrabo, 33, se refere à construção, de fato austera, que ele e seu sócio, Pedro Duschenes, 31, ergueram para servir de moradia para até 540 alunos de um internato em Tocantins.

A racionalidade da construção, seguindo os hoje incontornáveis padrões de sustentabilidade, colocou-a entre os finalistas do prêmio internacional do Instituto Real de Arquitetos Britânicos (Riba, na sigla em inglês).

O edifício de Utrabo e Duschenes, do escritório Aleph Zero, com design de Marcelo Rosenbaum, concorre com outros três projetos.

Dois outros são de instituições de ensino -a escola de música Tokuo Gakuen, em Tóquio, do escritório Nikken Sekkei, e a Central European University, em Budapeste, dos irlandeses Sheila O'Donnell e John Tuomey.

O último, e mais pop de todos, é a segunda etapa de um edifício residencial que mudou o skyline de Milão, o Bosco Verticale, do Boeri Studio.

O anúncio dos quatro finalistas do concurso seria feito em Londres, nesta quarta (12).

A "aldeia das crianças" atende aos alunos mais velhos, dos 13 aos 18 anos, de uma escola mantida há 45 anos pela Fundação Bradesco em um ponto muito remoto do país.

A distância de tudo ( "uma carreta daqui para lá demora uma semana") exigia que o projeto fosse pensado com muita racionalidade.

A estrutura, assim, foi a mais leve possível, feita de madeira laminada colada, que só foi levada de São Paulo para o local quando tudo estava testado. Os tijolos foram fabricados, 4.000 por dia, no canteiro.

As alas, feminina e masculina, com 23,5 mil m², ficaram prontas em janeiro de 2017, após 14 meses de trabalho.

Cada quarto para seis alunos foi identificado por um grafismo indígena diferente, pintado sobre palha de buriti.

O projeto venceu, no ano passado, o quarto Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel e o American Architecture Prize, na categoria de habitação social. 

Utrabo e Duschenes também já foram premiados pelo Riba. O instituto britânico reconheceu o Aleph Zero como melhor escritório emergente do ano, prêmio dado a firmas com até dez anos.

Para Ben Derbyshire, presidente do Riba, o que permite dizer que um edifício é bem sucedido é "a contribuição positiva que ele traga para o contexto local e as pessoas".

Sob esse aspecto, Utrabo diz que já se sente premiado, ao saber que o rendimento dos alunos da escola de Canuanã melhorou no ano passado.

"Não dá para dizer que é necessariamente por causa da construção, mas eles tiveram nota maior no vestibular."

O vencedor do Riba International Award será divulgado no dia 29 de novembro.

Por Francesca Angiolillo

Fonte: Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/09/2018