Construção civil busca maior integração digital

Tímido em relação à inovação tecnológica, o setor de construção civil e infraestrutura corre contra o tempo para alinhar-se ao universo digital. Em todo o mundo, empresas mais arrojadas tiram proveito de tecnologias como big data, drones, inteligência artificial, blockchain e internet das coisas para aumentar produtividade e reduzir custos. Os benefícios cobrem desde rotinas administrativas até a operação e monitoração do canteiro de obras, passando pelo planejamento e execução dos projetos.

No Brasil, o ritmo dos investimentos é lento, mas há sinais de maior consciência quanto ao imperativo da transformação. Um deles é a aproximação entre construtoras e construtechs, como são chamadas startups que criam tecnologias específicas para o setor.

Segundo a ConstrutechVentures, o país tem mais de 250 construtechs e proptechs - estas focadas em tecnologia de propriedade ou imobiliária. Algumas já testam soluções em escala real em grandes obras. É o caso da Levitar, que participa de programas de inovação da Andrade Gutierrez. Drones equipados com inteligência da startup ajudarão a multinacional brasileira no lançamento de cabos de linhas de transmissão elétrica em obra com 2 mil quilômetros de extensão. Os benefícios, segundo Clarisse Gomes, gerente de inovação da empresa, vão além da agilização do trabalho - os drones evitam desmatamentos para transporte de carga.

A estratégia de inovação da Andrade Gutierrez ganhou impulso este ano com a primeira chamada de startups de sua aceleradora, a Vetor AG a. Sete startups participam do programa de incubação. O grupo propôs soluções que vão de digitalização de projetos em campo e sensores para coleta automática de dados até uso de inteligência artificial para prever falhas e melhorar operação de máquinas, além do uso de drones inteligentes para vários fins. "Esperamos expandir as aplicações para ter as startups como fornecedoras, mas a convivência com esse ecossistema já trouxe uma evolução cultural na empresa", diz Clarisse.

Na MRV Engenharia, Flávio Vidal, gestor executivo de inovação, diz que a companhia manteve investimentos, a despeito da crise econômica. "Estamos estudando parceria para avançar no uso de robótica aplicada a canteiros de obras". Mas, para ele, a espinha dorsal da transformação é a modelagem de informações da construção (BIM, na sigla em inglês). "Investimos muito nisso nos últimos anos porque, em nossa visão, quem não tem BIM não pode falar em digitalização ou indústria 4.0".

O BIM permite a criação de modelo digital em três dimensões que reúne todas as informações relacionadas a uma obra. Quem usa a plataforma pode identificar e corrigir erros na fase de projeto, o que ajuda a cumprir prazos e a reduzir o desperdício de materiais.

Roberto de Souza, presidente da consultoria Centro de Tecnologia de Edificação (CTE), defende o compartilhamento de conhecimentos e de experiências na cadeia de construção como forma de acelerar a transformação do setor, que ele avalia como "de incipiente para baixo". Um movimento nesse sentido é a Rede Construção Digital, formada por 32 empresas, entre elas Basf, Cyrela, Deca, Eztec, Gafisa, Intercement, e MRV, para discutir conceitos e casos de uso de tecnologias inovadoras aplicadas à construção. "O objetivo é gerar conhecimento e exponenciar a digitalização e a competitividade do setor", diz Souza.

Disseminar conhecimento para vencer resistências é o que tem feito a empresa de TI Construtivo, com resultado satisfatório na difusão da tecnologia blockchain. "Este não é um setor ávido por tecnologias, mas sempre que uma empresa entende os benefícios do blockchain, contrata o recurso", diz o CEO, Marcus Granadeiro. Blockchain é um sistema que usa criptografia para encadear em blocos as etapas de uma transação, compartilhando os registros em tempo real com os interessados. Segundo Granadeiro, a tendência é que documentos como diários de obra, contratos e vistorias passem a ser registrados em blockchain. A inovação, usada por empresas como Voith e Usina Belo Monte, é ítem opcional no sistema de gestão de documentos e processos em nuvem da Construtivo. 

Por Ana Lúcia Moura Fé, do Valor

Fonte: Folha de S. Paulo, Empresas, 29/06/2018