Setor de construção registra alta de quase 20% na Bolsa no início do ano

O índice de ações do setor imobiliário (Imob) avançou 19,2% no ano de 2015 até ontem para 599 pontos. É um movimento de recuperação, mas ainda com perdas acumuladas de 35,6% desde o início de 2013, quando registrava 930,05 pontos na Bolsa.

Nos últimos dois anos, o setor imobiliário sofreu com o ciclo de aumento dos juros (taxa básica Selic) na economia, pois depende da melhoria do crédito e da renda das famílias para crescer.

"O setor imobiliário teve que fazer um forte ajuste nesse período. As empresas tiveram que reduzir o número de lançamentos de unidades para melhorar sua rentabilidade. Esse ajuste continua, mas está mais próximo do final. A Bolsa de Valores antecipa esse movimento da economia real em pelo menos seis meses, por isso, a valorização dos papéis", aponta o sócio-diretor da Escola de Investimentos Leandro & Stormer, Alexandre Wolwacz.

Ele explicou que a recuperação do índice Imob na BM&FBovespa também está relacionada a entrada de estrangeiros no mercado acionário brasileiro em 2015. "Os estrangeiros compraram principalmente papéis dos setores financeiros, de lojistas e da construção civil".

Mas Wolwacz lembrou que o desempenho do setor imobiliário não é uniforme, e citou que a PDG Realty ainda passa por dificuldades financeiras e prejuízos seguidos nos balanços, e que o papel poderá sair do Ibovespa em breve, por ter valor inferior a R$ 1, uma regra da Bolsa de Valores de São Paulo para excluir ações de baixo valor do principal índice à vista.

"A PDG sofreu uma forte pressão de venda concentrada nesse início de ano. O papel recuou mais de 57%. O retorno sobre o patrimônio líquido estava negativo em 12,7%. A PDG busca um aumento de capital de R$ 500 milhões. A Vinci Partners promete entrar com 81% do aumento de capital, mas o mercado ainda tem muitas dúvidas se os recursos serão suficientes para reverter a situação da empresa e o preço do papel", diz o diretor.

Sobre o ajuste do setor, Wolwacz lembrou que construtoras que reduziram seus lançamentos nos últimos dois anos, conseguiram melhorar seus resultados. O retorno sobre o patrimônio líquido da Eztec alcançou 19,7%, enquanto o da Even registrou 11,9%, e a Cyrela atingiu 11,7%.

Minha Casa, Minha Vida

Quanto às perspectivas para o ano de 2015, Wolwacz citou dados setoriais (Sinduscon) de que o mercado espera um crescimento de 0,5% do setor imobiliário, enquanto o produto interno bruto (PIB) pode ter retração no exercício. Esse pequeno crescimento é puxado pelo orçamento do programa federal de habitação, o Minha Casa, Minha Vida. "Estão previstas 350 mil unidades do Minha Casa, Minha Vida nesse primeiro semestre", contou.

Nesse cenário, um dos papéis que mais chamam a atenção dos investidores é da construtora Direcional, que atua no segmento de moradias populares. "O papel da Direcional teve momentos de recuo no ano passado [período eleitoral], mas agora apresenta tendência de alta. O ROI [retorno sobre o patrimônio líquido] é de 12,7% e distribuiu dividendos de 9,3%", exemplificou.

Riscos do setor

Em relatórios recentes, a corretora Planner destacou que o setor imobiliário como um todo, passa por um ajuste, que deverá permanecer este ano. "Continuamos bastante seletivos nas recomendações dentro do setor considerando todas as dificuldades que a construção civil enfrenta neste momento, sem perspectiva de melhora no médio prazo", diz a Planner.

Sobre a PDG Realty, a corretora avalia que a empresa definiu um plano em três frentes com o objetivo de melhorar a estrutura de capital.

"Ao longo deste ano [de 2015], a empresa pretende focar seus esforços no alongamento de dívidas corporativas e de apoio à produção com vencimento em 2015 e acelerar o processo de venda de ativos considerados não estratégicos, além de se beneficiar do aumento de capital proposto pelo Conselho de Administração da companhia", argumenta.

Quanto ao endividamento, o cronograma da PDG prevê vencimentos de R$ 833 milhões no 3° trimestre, e de R$ 448 milhões no último trimestre do ano, após compromissos de R$ 401 milhões no primeiro trimestre e de R$ 227 milhões no segundo trimestre. "Isto poderá exigir novos esforços da PDG para tocar seus negócios e ainda honrar suas obrigações", diz a corretora.

Em 2015, a ação da PDG Realty já acumula perda de 37,2% ante a cotação de R$ 0,86 do início do ano. Ontem, o papel recuou 5,26% e encerrou ao preço de R$ 0,54.

Sobre o papel da Direcional Engenharia, o último relatório lembrou que a companhia foi responsável por 10% do total de unidades contratadas no programa Minha Casa, Minha Vida. No ano passado, o programa federal de moradias populares contratou 181 mil unidades ao todo, 67% abaixo da contratação feita em 2013.

Quanto ao preço do papel, a Planner lembrou que a ação da Direcional caiu 28,2% em 2014 após queda de 13,2% em 2013. Em 2015, a ação com direito a voto listada no Novo Mercado (ON) da Direcional Engenharia apresenta baixa de 19% para R$ 6,55 ante o valor de R$ 8,12 do início do ano. Ontem, a ação da empresa encerrou o pregão em baixa de 0,75%.

Ainda sobre o índice Imob, os papéis de segmento de shoppings centers como Multiplan e Iguatemi também participam da composição do indicador e possuem um dinâmica diferente em relação as demais construtoras e incorporadoras da carteira.

Em seu último relatório, a Planner considerou que possui uma visão positiva sobre o segmento de shoppings centers. "Mas nossa preferência continua sendo a Multiplan dentro do setor", diz a corretora. Ao mesmo tempo, considera que o lucro líquido da Iguatemi teve crescimento expressivo "a despeito do aumento da despesa financeira líquida". A Iguatemi apresentou crescimento de 18,9% de sua receita líquida no último balanço publicado, em função de shoppings inaugurados em 2010.

Por Ernani Fagundes

Fonte: DCI, 15/04/2015