Bom para a cidade

Ainda que com certa irregularidade, principalmente em razão das características específicas das demandas de cada obra, o Rio vem cumprindo o cronograma de intervenções urbanísticas com o qual se comprometeu ao reivindicar o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. O programa de obras normalmente complexo para adequar uma cidade às exigências do Comitê Olímpico Internacional é uma questão irrecorrível para os municípios que se apresentam como candidatos a promover o evento.

No caso da candidatura carioca, a essa premissa geral juntou-se uma particularidade — a necessidade de o Rio, independentemente de ter sido escolhido como sede das Olimpíadas, enfrentar o problema de uma rede de infraestrutura deficiente, defasada, já insuficiente para dar conta de históricas demandas.

A isso, acrescentou-se um agravante: a escolha da Barra da Tijuca para concentrar competições e equipamentos olímpicos — por decorrência, a fim de receber a parte substancial dos investimentos previstos para preparar a cidade com vistas a 2016 — potencializou o desafio da infraestrutura.

A região ainda se ressente de um modo de ocupação que, em geral, passou ao largo de um planejamento bem estruturado. Com isso, ao lado de problemas como uma deficiente rede de transporte de alta frequência, convivem outros como agravos ambientais, rede sanitária insatisfatória etc.

Por óbvio, são grandes questões urbanísticas, complexas em si, agravadas por anos de leniência do poder público. A oportunidade olímpica deu grande impulso ao enfrentamento de tais demandas, e é por esse viés que a população do Rio recebe a maior parte dos benefícios que vêm sendo incorporados à malha urbana, e que ficarão para a cidade como legado dos Jogos de 2016. Outras intervenções, no entanto, ainda são objeto de questionamentos, mesmo diante da evidência de que, ao fim, o saldo será positivo para o Rio.

Caso da construção do campo de golfe numa área entre a Avenida das Américas e a Lagoa de Marapendi. Esse equipamento, que marcará a reincorporação dessa modalidade esportiva às Olimpíadas, 112 anos depois de sua última inclusão no programa de competições (em 1904, nos Jogos de Saint Louis), será um dos mais cristalinos legados do evento: a partir de 2016, funcionará como uma instalação pública para incrementar o desenvolvimento do esporte não só no Brasil, bem como incentivar o turismo nacional e internacional associado ao golfe.

A contrapartida do município para fazer frente ao investimento de R$ 60 milhões, pela iniciativa privada, o orçamento do campo, foi a liberação de uma área para a construção de um empreendimento imobiliário e um hotel.

Não houve atropelos legais nesse processo, uma vez que a Câmara dos Vereadores aprovou legislação específica para uma ação integrada em que, de uma só tacada, a cidade ganha um campo de golfe de padrão internacional e amplia a oferta hoteleira.

Fonte: O Globo, 17/02/14