São Paulo cresce e muda perfil da periferia

 

SÃO PAULO, 8 de janeiro de 2009 - O cenário onde a professora de ioga Tânia Castilho costumava brincar de esconde-esconde com seus vizinhos, quando criança, não existe mais. A antiga pedreira deu lugar a um conjunto de edifícios residenciais, no alto da encosta. A rua de sua casa também não é a mesma. A terra batida - onde ela e os colegas vendiam limão em troca de alguns centavos -, hoje possui uma cobertura cinzenta de asfalto. Tânia tem acompanhado essas e outras transformações no bairro onde mora desde que nasceu, há 35 anos. Conhecido por abrigar pequenas indústrias, o bairro Jaguaré, em São Paulo, tem mudado bastante desde a chegada de empreendimentos imobiliários, principalmente residenciais.

Segundo João Crestana, presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi), a expansão imobiliária da região se explica pela proximidade com os bairros da Lapa e Pinheiros, onde os preços dos apartamentos se tornaram exorbitantes e a ocupação, saturada. "O Jaguaré é a bola da vez. O bairro oferece boas opções de terrenos, possui infra-estrutura e tem fácil acesso pela Marginal Pinheiros, além do trem e metrô", argumenta Crestana.

O presidente do Secovi acrescenta que o interesse pelo local também se deve à inadequação do Plano Diretor de São Paulo. Para ele, as diretrizes descritas no plano impossibilitam que regiões centrais da capital sejam bem ocupadas. "Por isso, as empresas da construção precisam buscar locais periféricos. E, sem dúvida, o Jaguaré é mais central do que Osasco ou Tatuapé. O bairro é quase uma extensão da Avenida Faria Lima", afirma.

Os números refletem isso (veja boxe). Em 2005, foram vendidas 232 unidades de dois dormitórios. O preço médio, na época, era de R$ 88 mil, e a área útil girava em torno de 49 m. Entre janeiro e novembro de 2008, o número de apartamentos vendidos caiu para 104 em decorrência do aumento das vendas de unidades com três e quatro quartos. De lá para cá, houve uma valorização de todos os tipos de imóveis. Isso é evidente pelo valor das unidades de dois dormitórios, que chegou a R$ 192 mil, no ano passado. Em 2005, foram vendidos 334 apartamentos. Este número mais que dobrou: até novembro do ano passado, 701 unidades tinham sido compradas.

Neste mês e em fevereiro serão entregues 384 apartamentos do Panorama Home & Resort, empreendimento da incorporadora Halna, no Jaguaré. Construídas em um terreno de mais de 17 mil metros quadrados, as seis torres já foram todas vendidas. Por isso, o preço do metro quadrado aumentou. Em setembro de 2006, época do lançamento do empreendimento, ele custava em torno de R$ 2,4 mil, hoje, chega a R$ 3 mil. "Vários compradores revenderam o imóvel por causa dessa valorização", conta Arnaldo Halpern, diretor da incorporadora. O empreendimento oferece área de lazer completa: piscina infantil e de adulto, fitness center, churrasqueira e forno para pizza, quadra de bocha, quadra poliesportiva, campo de futebol society e brinquedoteca.

Mas o melhor do produto não está dentro dele, e sim o que se vê através de sua janela: a vista do bairro. Do alto, é possível enxergar uma infinidade de casinhas minúsculas e alguns prédios residenciais ilhados entre elas. Uma ou outra fábrica abandonada completa a composição, que só é visível por não haver barreiras próximas, como a de edifícios.

Este é o terceiro empreendimento da empresa na região. "Vimos que os outros imóveis tiveram grande sucesso e apostamos no bairro. Em todos os casos, conseguimos entregar os empreendimentos antes do previsto." Segundo Halpern, o perfil dos compradores é variado: vai desde recém-casados até casais na terceira idade; de famílias com filhos pequenos a solteiros. "Eles foram atraídos pelas facilidades oferecidas pelo bairro e pela infra-estrutura. Além disso, o produto é muito bom, assim como o preço", completa.

"No boom imobiliário, foi aquela correria, as empresas compraram qualquer terreno. Nós não. Nós escolhemos um bairro que ainda tinha poucos empreendimentos e os valores de terrenos estavam adequados", conta. É por isso que o diretor acredita que, apesar do que dizem os especialistas, o ano será bom. "A crise vai tirar os excessos do mercado. As empresas que foram conscientes e fizeram investimentos adequados vão continuar com um bom ritmo", considera.

É o que espera a Goldfarb. Há poucos dias, a empresa lançou o empreendimento Ilhas Canárias. Para Marcelo Abbud, diretor de marketing da companhia, a proximidade com os supermercados Extra e Carrefour, além do parque Villa-Lobos e de padarias tradicionais, foi determinante para a compra do terreno. Direcionado ao público de classe média, o valor dos apartamentos varia de R$ 90 mil a R$ 140 mil. "O financiamento pela Caixa Econômica Federal tem sido muito importante para as vendas dos imóveis", diz o diretor.

Este também não é o primeiro empreendimento da empresa na região. Em 2000 foi lançado o Prime Residencial, com unidades que custavam entre R$ 170 mil e R$ 220 mil. Segundo Abbud, moradores de Osasco e do bairro Butantã têm procurado o local, assim como investidores e estudantes da Universidade de São Paulo (USP). "Não há tantos terrenos disponíveis na capital paulista, portanto, aproveitamos a bonança para comprá-los. Não paramos de procurar, apesar da crise", revela.

Novo cenário

O bairro Jaguaré costumava ser um tipicamente de galpões e de pequenas indústrias. De acordo com João Crestana, presidente do Secovi, faz sete anos que o mercado imobiliário descobriu o local. A partir daí, a paisagem vem mudando a cada dia. Prédios são erguidos, enquanto fábricas e casas, demolidas. Mesmo assim, a sensação de quem passa pela região é de quem visita uma cidade de interior, apesar de saber que ela faz parte de uma grande metrópole.

As ruas, predominantemente cercadas por casas, abrigam pessoas que se conhecem há anos. A vizinha da frente de Tânia Castilho, por exemplo, é, segundo ela mesma, a primeira aluna da professora de ioga. Outra vizinha foi convidada para ser a madrinha do filho que está para nascer a qualquer hora. É por causa dessa cumplicidade que as mudanças no bairro chocam os moradores, acostumados com a convivência de porta em porta. "O trânsito ficou muito ruim. Uns dizem que foi por causa do Rodoanel, mas não sei. De qualquer forma, a minha filha não pode brincar na rua", reclama Tânia.

Apesar da nostalgia de Tânia, Crestana acredita que essa mistura é importante para o bairro. "Ter classes diferentes convivendo juntas proporciona melhor qualidade de vida para todos os moradores." O tempo dirá. (Natália Flach - Gazeta Mercantil)