É hora de repensar o futuro do setor

 

SÃO PAULO, 6 de novembro de 2008 - O mercado imobiliário brasileiro acorda todos os dias com perspectivas pessimistas batendo à porta. Apesar dos números e das pesquisas do setor ainda não demons-trarem esse novo cenário, ele é inevitável, segundo Amarillys Romano, consultora da Tendências Consultoria Integrada. "A informação oficial é muito defasada. Mesmo assim, a gente já sente que o panorama é bem diferente daquele de 60 dias atrás", afirma. Ela foi uma das palestrantes do Encontro sobre as Tendências em Negócios Imobiliários, realizado na última segunda-feira pelo Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

"Até 7 de setembro era perfeitamente cabível a euforia do mercado imobiliário, a partir daí tudo mudou da água para o vinho. Mas não é o fim do mundo, o momento é só um pouco pior do que esperávamos", diz. E as conseqüências desse cenário são claras, entre elas está a redução do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Segundo Amarillys, o índice deve chegar ao fim do ano por volta de 3,5% e, em 2009, não deve passar de 3%. "As projeções do crescimento do PIB da China passaram de 11% para 9,5%. Até aí tudo bem, o problema é se esse percentual for ainda menor", avalia a consultora.

O Brasil vai ser afetado e o crédito pode ser o principal vilão da história. Entretanto, se a concessão de crédito não for tão reduzida, a resposta pode ser a continuidade do crescimento do setor a taxas menores. Mas os números ainda não mostram nada favorável. De 2007 a 2008, os empréstimos externos de médio a longo prazo para o setor privado caíram 52,6%. "Não tivemos nada catastrófico como as quebras dos bancos lá fora, é um momento de exceção e medidas de exceção são necessárias." Para Amarillys, até agora as medidas adotadas pelo governo federal não conseguiram dar liquidez ao mercado. "Se a confiança não for restabelecida, não há medida que funcione", acredita.

Perspectivas

De acordo com Roberto de Souza, diretor do CTE, já é possível prever algumas conseqüências para o segmento imobiliário por causa da turbulência financeira. Uma delas é a desvalorização das ações das empresas, que devem cair cada vez mais. Outro ponto se refere às restrições de crédito e de consumo. "Empréstimos para a produção que chegavam a 90% do custo da obra devem ser reduzidos para 60%, com aumento das taxas de juros e das exigências por parte dos bancos", diz. Mas não são só as empresas afetadas pelo crédito: os compradores terão mais dificuldade para obter de financiamento. E se não há demanda, a saída é reduzir a oferta. Segundo Souza, as construtoras e incorporadoras estão diminuindo as compras de terrenos e revendo suas metas anuais de Valor Geral de Vendas (VGV). Além disso, parte delas preferiu vender parte de seu land bank (banco de terrenos) para obter caixa e assim viabilizar obras já lançadas e empreendimentos futuros. "Deve ocorrer uma desaceleração de lançamentos comerciais e residenciais de alto padrão."

A revisão na gestão das empresas deve atingir os salários dos funcionários e o sistema de remuneração. "Antes, o foco era atingir metas de venda, agora voltamos ao nível real", afirma. Ele também acredita que o número de fusões e aquisições deve aumentar, e assim, vai sobrar espaço para as empresas que fizeram o dever de casa em termos de governança corporativa, sustentabilidade e gestão financeira. "É o momento de redefinir empresas e negócios para tornar o mercado sustentável. Temos competência para isso."

É o que Jorge Luiz Arraes, diretor da Fundação dos Economiários Federais (Funcef), também acredita. Para ele, a governança corporativa é decisiva para a permanência da empresa no mercado, e, nesse momento de crise, o fluxo de caixa pode ser o diferencial. "Acho que as medidas do governo foram acertadas. Isso desmistificou a auto-regulação do mercado. É importante colocar um freio de arrumação no setor. Antes estava ocorrendo uma corrida desenfreada", conclui. (Natália Flach - Gazeta Mercantil)