Novo cenário força companhias a mudar estratégia

 

Chico Santos, do Rio
04/11/2008

O empresário carioca Rogério Chor, 49, presidente da construtora CHL (grupo PDG Realty) e da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ), disse que é um erro o governo, por intermédio da Caixa Econômica Federal (CEF), aplicar dinheiro na compra de participações acionárias de empresas de construção civil, como prevê a Medida Provisória (MP) nº 443. "Não há necessidade de um socorro dessa magnitude, de o governo comprar ações das empresas imobiliárias", afirmou.
Silvia Costanti / Valor
Chor, presidente da CHL, espera que o governo federal não use a MP 443 para tornar-se sócios das construtoras

Da parte do governo, o empresário avalia que comprar ações das empresas significa "usar dinheiro do Tesouro (Nacional) para fazer hospital de empresas", que, na sua avaliação, devem arcar com os riscos inerentes ao mercado, tenham ou não feito opções erradas.

Da parte das empresas, Chor avalia que aceitar a venda de ações para o governo nos preços baixos atuais é diluir inteiramente o controle, já que teria de emitir de 20 milhões a 30 milhões de ações para conseguir um aporte de R$ 50 a R$ 60 milhões, o mínimo que, no seu entender, seria necessário para a empresa superar uma eventual crise. "Aceitar ser tão diluído a esse preço (do mercado atual) já é um mau sinal", constata.

O empresário considera bem-vinda e adequada a linha de crédito para capital de giro que a CEF também se propôs a disponibilizar. Segundo ele, essa linha vai suprir o fechamento, pelos bancos, das linhas de desconto de recebíveis e permitir que as empresas imobiliárias mantenham seus planos de crescimento para 2009. "Mas ainda precisamos saber como ela (a linha) será executada", ressalvou.

Chor considera o setor da construção residencial no Brasil saudável, ainda que possam haver exceções, e aposta que os balanços do terceiro trimestre das empresas de capital aberto irão apresentar lucros expressivos, como ocorreu no primeiro semestre do ano. "Acho que as empresas devem tocar o dia-a-dia e esquecer, no bom sentido, a Bolsa. No longo prazo a verdade vai aparecer. O que interessa ao mercado acionário é que as empresas sejam sólidas e apresentam resultados", afirma.

Chor admite que as empresas que compraram terrenos ao longo dos últimos anos, quando os preços ficaram elevados, podem ter agora nas mãos ativos que caíram de valor, mas entende que, no momento em que as empresas investiram para formar seus bancos de terrenos, com os recursos apurados com seus lançamentos primários de ações (IPO, na sigla em inglês), elas agiram corretamente.

"Nós somos empresas imobiliárias. Precisamos de terrenos para ter o que vender", argumenta, acrescentando que, na gestão da CHL, ele prefere trabalhar em regime de hora certa, ou seja, comprando o terreno o mais próximo possível do momento de construir. "Quando se trabalha assim, se o preço dos terrenos sobe, você paga mais caro. Mas se o preço está em queda, paga mais barato", analisa, admitindo que quem fez estoque de terrenos recentemente está carregando um ativo caro, porque os preços agora estão em queda. "Mas não foi erro, foi uma questão de estratégia."

O empresário sustenta também que hoje não há problema de formação de estoques de imóveis construídos, exceto em casos pontuais, como na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. Não havendo estoque, no seu entendimento, não há excesso de oferta e nem risco de uma queda abrupta de preços que venha a provocar uma quebradeira. Até porque, segundo ele, os bancos ainda não acenaram com nenhuma perspectiva de mexer nas taxas de juros baixas e nem nos prazos do financiamento imobiliários, que chegam a 25 anos, os mais elásticos da história recente.

Esse raciocínio, para Chor, só reforça a idéia de que o governo não deve agir como se estivesse estimulando o aumento da oferta neste momento, com o risco de, aí sim, gerar excessos. Melhor, para ele, seria se fossem tomadas medidas estimulando, por exemplo, o mercado de aluguéis, como facilitar a retomada do imóvel em caso de inadimplência ou taxação decrescente sobre a renda do aluguel de acordo com o tempo de locação.