Sustentabilidade: a agenda do setor da construção para os próximos anos

 O setor da construção mostra-se hoje vigoroso diante de animadores indicadores de crescimento da economia do país e de um mercado imobiliário em franca expansão, com o programa Minha Casa Minha Vida permitindo a entrada de novos segmentos sociais no mercado e a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 gerando muitos investimentos em infraestrutura e mobilidade urbana.

Quais as oportunidades que o setor tem para inserir a sustentabilidade em sua agenda nos próximos anos e fazer com que esse crescimento seja sustentável?

É necessário, de antemão, um plano estratégico setorial para garantir que não faltarão recursos de investimento e financiamento, materiais e equipamentos, e profissionais qualificados, como projetistas, engenheiros de obras, equipes de produção. As empresas e o governo deverão também estar preparados em termos de planejamento e gestão para aprovar, projetar e construir dentro dos prazos e custos definidos, com garantia da qualidade.

Outra questão diz respeito às diretrizes ambientais para o desenvolvimento, projeto e construção dos vários empreendimentos resultantes deste crescimento, que envolvem economia de energia e água, utilização de materiais reciclados, gestão de resíduos e garantia da qualidade do ambiente interno.

Neste aspecto, temos hoje várias iniciativas em curso no mercado, que podem ser fortalecidas. A certificação ambiental dos empreendimentos pelo modelo americano do LEED®, do Green Building Council, por exemplo, vem crescendo de forma significativa no país. Hoje ocupamos a quinta posição no ranking de empreendimentos registrados para certificação (quase 200 empreendimentos), abaixo dos EUA, Canadá, Emirados Árabes e China. O modelo francês de certificação ambiental (AQUA) também começa a ocupar espaço no Brasil. A Caixa Econômica Federal lançou o Selo Casa Azul com 54 diretrizes para a construção sustentável dos empreendimentos. A FIFA tem um conjunto de diretrizes de sustentabilidade para a construção dos estádios, assim como o Comitê Olímpico Brasileiro para as Olimpíadas.

Na questão social, há um grande espaço para o setor investir na capacitação e no treinamento de seus profissionais nos diversos níveis, promovendo o desenvolvimento profissional de arquitetos, engenheiros e tecnólogos e a inclusão social dos operários para gerar aumento de emprego e renda.

Como aplicar, então, os conceitos da sustentabilidade ao DNA das empresas da cadeia produtiva da construção?

Em primeiro lugar, abrindo espaço para incluir os aspectos de responsabilidade socioambiental na estratégia das empresas, em seus valores e em suas diretrizes de gestão. Algumas ações concretas podem sinalizar aos stakeholders da organização o compromisso com o desenvolvimento sustentável. Por exemplo, a adesão da empresa ao Pacto Global, a adoção dos indicadores ETHOS para medir o estágio da empresa em relação ao compromisso socioambiental, assim como podem ser desenvolvidas ações corporativas para reduzir as emissões de CO2 e o aquecimento global, e implementadas ações de responsabilidade social empresarial.

Em segundo lugar, as empresas podem incorporar as diretrizes ambientais, sociais e econômicas — tripé da sustentabilidade — aos seus processos de gestão. Por exemplo, uma incorporadora e construtora pode definir contornos sustentáveis para os processos de escolha de terreno, concepção de produto, desenvolvimento de projeto, suprimentos, execução de obras, manual de uso e assistência técnica. Para tal, os processos podem ser redesenhados, incluindo diretrizes socioambientais e check lists para verificar se as diretrizes estão sendo efetivamente aplicadas. Ou seja, podemos rodar nos processos empresariais um ciclo especial de PDCA, que incorpore a sustentabilidade no dia a dia da incorporadora e construtora.

Nas empresas fabricantes de materiais, a inclusão do DNA da sustentabilidade é também plenamente possível. No aspecto da produção, é necessário inovar nos produtos e redesenhar os processos de fabricação de materiais, incorporando as metodologias de Design Sustentável e Análise do Ciclo de Vida do Produto.

Enfim, a questão da sustentabilidade é um desafio complexo para as empresas da cadeia produtiva, mas pode ser enfrentada de forma evolutiva, definindo-se planos de ação e prazos factíveis, que irão consolidar a cultura do desenvolvimento sustentável na organização. Na verdade, trata-se de estabelecer um programa estratégico, pois a tendência é a de evoluirmos cada vez mais rápido para uma sociedade e uma economia em que os valores da sustentabilidade sejam adotados por consumidores, contratantes, investidores e governos.
Pensar globalmente e agir localmente”, esta é uma boa dica para as empresas que têm compromisso com as futuras gerações.


 

 

* Roberto de Souza é Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Engenharia pela Escola Politécnica da USP, Diretor Presidente do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

 

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