Green Building: o desafio da compra de materiais sustentáveis

Ecomaterial, material 100% ecológico, material sustentável, material amigo do meio ambiente, material reciclável, material natural... As novas denominações para propagar materiais ditos sustentáveis são tantas que acabamos por ter uma imensa dificuldade em saber o que é de fato um material que gera menos impacto ao meio ambiente e qual deles devemos aplicar em nossas edificações e escritórios.

Os edifícios e escritórios verdes com suas certificações e etiquetagens, como a LEED® (Leadership in Energy and Environmental Design), AQUA (Alta Qualidade Ambiental) e Procel Edifica, tornaram-se os novos padrões de mercado. Hoje existem empresas de comercialização de edifícios que já consideram o edifício certificado como condição para um edifício corporativo se enquadrar como Triple A.

As certificações demandam e valorizam a especificação de materiais com maior desempenho ambiental. Na norma LEED, por exemplo, os materiais regionais, que possuam grande conteúdo de material reciclado em sua composição e tenham baixas emissões de compostos orgânicos voláteis (COV), são contabilizados na pontuação total dos edifícios.

No entanto, o mercado brasileiro de materiais “verdes” para a construção ainda está em seus primórdios, quando o comparamos ao mercado dos Estados Unidos, Austrália, Japão e União Europeia. Nestes países, existe uma diversidade de Selos Verdes e etiquetagens que comprovam as características ambientais dos materiais por meio de ensaios e avaliações criteriosas, realizados por entidades de terceira parte, que dão credibilidade às informações fornecidas pelos fabricantes e minimizam o greenwashing.

Greenwashing — cuja tradução literal seria “lavagem verde” — é o ato de induzir o consumidor ao erro quanto às práticas ambientais de uma empresa ou aos benefícios ambientais de um produto ou serviço. Segundo relatório da entidade TerraChoice, os produtos que se intitulam como verdes cresceram entre 40 a 176%, de 2007 a 2009; entretanto, 98% deles cometeram pelo menos um dos pecados do greenwashing (ver quadro A).

Quadro A – Os sete pecados do Greenwashing (fonte: www.marketanalysis.com.br)

1. Custo ambiental camuflado: se refere aos rótulos que destacam uma qualidade ambiental do produto para camuflar outras características insustentáveis que, juntas, têm um custo ambiental muito maior.
2. Falta de prova: analisa as declarações vagas nas embalagens dos produtos, como “ambientalmente correto”, que não especificam os fatos em que são baseadas.
3. Incerteza: se refere a expressões que provocam dúvida no consumidor, como o termo “material reciclado”, que não indica exatamente a porcentagem do produto que foi feita do reaproveitamento de materiais.
4. Culto a falsos rótulos: condena as embalagens que, a partir de palavras ou imagens, querem passar a falsa ideia de endosso de entidades de renome, como a FSC.
5. Irrelevância: se refere aos rótulos de produtos que indicam uma qualidade que, na verdade, possui benefício ambiental quase nulo (exemplo: produto sem CFC, o qual já é proibido por lei).
6. Menos pior: se refere a produtos que, por mais que tenham qualidades ambientais, só trazem malefícios para o consumidor e para o meio ambiente, como o cigarro orgânico.
7. Mentira: indica embalagens que contém declarações ambientais que são simplesmente falsas.



No Brasil, os selos verdes emitidos por terceira parte estavam inicialmente focados em produtos orgânicos (alimentícios) e madeira certificada. Atualmente, os selos que abrangem materiais de construção civil começam a ganhar espaço, o que pode ser visto como um primeiro passo para a criação de um mercado de produtos mais sustentáveis, facilitando assim a vida dos compradores (ver quadro B).

No sentido de impedir o greenwashing, a rotulagem ambiental pode ser padronizada de acordo com os critérios estabelecidos pela série de normas ISO 14020, reconhecidas internacionalmente. De forma resumida, o fabricante pode apresentar as características ambientais de seus produtos por meio de três abordagens:

Declaração de primeira parte: o próprio fabricante apresenta dados ambientais de seus produtos, como, por exemplo: relatório com a quantidade de conteúdo reciclado existente na composição de seu produto; FISPQ (Ficha de Informações de Segurança de Produto Químico), apresentando a quantidade de COV emitida pelo produto e a simbologia que identifica se o produto é reciclável.
Declaração de segunda parte: envolvem a rotulagem para produtos ou as embalagens concedidas por associac¸o~es comerciais. Na~o esta~o diretamente ligadas a` fabricac¸a~o ou venda do produto e as categorias de informac¸a~o podem ser estabelecidas pelo setor industrial ou por organismos independentes.
Declaração de terceira parte: uma entidade independente (instituic¸o~es governamentais, do setor privado ou organizac¸o~es sem fins lucrativos), com base em critérios específicos, realiza a avaliação dos produtos por meio de auditorias e ensaios, emitindo um selo ao final do processo. São exemplos: o selo ecológico da Falcão Bauer, Selo FSC Forest Stewardship Council, Selo GreenGuard, Selo Procel e Green Seal.


Se na declaração de primeira parte sempre haverá o risco de o fabricante evitar apresentar pontos negativos de seus produtos por razões comerciais, na declaração de segunda e terceira parte a credibilidade do selo ficará por conta da credibilidade da entidade que o emite, não sendo raro, no entanto, o conflito de interesses.   

Em todas as alternativas é fundamental que os critérios de avaliação e métodos de ensaios utilizados sejam claros e tornados públicos, de preferência baseados em normas técnicas existentes nacionais ou internacionais. Esta condição dará a necessária credibilidade ao produto e irá inserir também o fornecedor dentro das regras do Código de Defesa do Consumidor, que, desta forma, estará sujeito às punições legais pertinentes caso houver a divulgação de informações sem veracidade.

Além da identificação dos selos, o comprador pode utilizar a “ferramenta dos seis passos” desenvolvida pelo CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável). Esta ferramenta possibilita ao comprador identificar requisitos mínimos de sustentabilidade do fornecedor antes de selecionar um material: 1) formalidade da empresa; 2) licenciamento ambiental da fábrica ou jazidas; 3) respeito às normas técnicas, que garante a qualidade do material; 4) perfil de responsabilidade socioambiental da empresa; 5) avaliação de greenwashing; e 6) análise de durabilidade do produto (www.cbcs.org.br).

É importante ressaltar que, além da avaliação dos impactos ambientais do produto, o comprador deve considerar outras características que definem também o nível de sustentabilidade dos materiais, tais como: funcionalidade, durabilidade, estética, custos de manutenção, custo de reposição, prazo de garantia, segurança ao usuário e atendimento das leis e normas técnicas.

Os selos ambientais têm seu papel na promoção do mercado de materiais, no entanto, o crescimento desenfreado dos mesmos pode gerar confusões para os compradores, além de continuarem na tentativa de rotular os produtos como ambientalmente correto, ecológico, sustentável, etc., ou seja, treinam o consumidor a procurar símbolos, mas não informam os aspectos ambientais do produto.

Assim, esperamos que em um futuro não muito distante, os produtos apresentem rótulos descritivos que apresentem suas características de forma simplificada, clara e direta — % de conteúdo reciclado, consumo de água, consumo de energia, regionalidade, níveis de emissão de COV e outros. Assim, teremos como selecionar os produtos com base nos critérios que forem mais convenientes para cada empreendimento, de forma similar a que já fazemos hoje ao comprar um produto alimentício com base no informe nutricional da embalagem.

    Quadro B – Exemplos de Selos Verdes adotados no Brasil

O selo FSC (Forest Stewardship Council) é um selo voluntário e atesta ao consumidor que toda a cadeia produtiva envolvida na fabricação do produto foi certificada pelo sistema FSC, permitindo a` sociedade valorizar as iniciativas que promovem o manejo responsável das florestas.
O selo Procel, que tem caráter voluntário, certifica equipamentos elétricos e eletrodome´sticos e é concedido aos produtos que apresentam os melhores ni´veis de eficie^ncia energe´tica dentro de sua categoria.
O selo Conpet, que tem caráter voluntário, certifica equipamentos domésticos de consumo de gás e é concedido aos produtos que apresentam os menores ni´veis de consumo de combustível.
O Selo Ecológico Falcão Bauer certifica de forma voluntária produtos e tecnologias sustentáveis, denotando o interesse de empresas fabricantes em atestar ao mercado suas preocupações com práticas economicamente viáveis, socialmente justas e ambientalmente corretas.

 

  * Anderson Benite é Diretor da Unidade de Sustentabilidade do CTE. Engenheiro Civil e Mestre em Engenharia pela Escola Politécnica da USP. LEED-AP Accredited Professional. Auditor Líder ISO 9001 e OHSAS 18001. MBA Executivo pelo Ibmec Business School. PNL Practitioner. Especialista em Sustentabilidade na Construção Civil e Sistemas de Gestão Integrada (qualidade, meio ambiente, segurança do trabalho e saúde ocupacional).