Sustentabilidade: práticas e iniciativas no setor da construção

 

Apesar de sustentabilidade ser hoje um dos temas de destaque no mundo e ser apontada como tendência internacional na construção, no Brasil as opiniões ainda se dividem. 

Alguns dizem tratar-se de mero marketing, que sustentabilidade é tema passageiro e não agrega valor ao produto, apenas custos e problemas de manutenção. Outros acreditam que é perda de tempo se dedicar a esta questão e é mais interessante focar os novos lançamentos com tecnologias convencionais, já que o consumidor brasileiro não reconhece a sustentabilidade como valor e não está disposto a pagar por ela. 

Outros ainda afirmam que não há caminho para a estratégia das empresas e para os empreendimentos que não passe pela economia de água, eficiência energética, redução das emissões e do aquecimento global. Por fim, parte do setor dá forte ênfase aos aspectos de responsabilidade social empresarial enquanto outra acha que ainda não é o momento de pensar no assunto, pois o que interessa hoje é o VGV. 

É fato, no entanto, que o País vive um momento extremamente rico em oportunidades para as empresas que desejam se diferenciar e assumir práticas de sustentabilidade em seus negócios, empreendimentos e obras, principalmente porque hoje há várias ações sendo desenvolvidas com relação à sustentabilidade na construção. 

Atualmente, quais são as iniciativas e os mecanismos que vêm ganhando corpo no setor da construção para um caminho sustentável?

 

 

Sustentabilidade Corporativa

A sustentabilidade corporativa é uma visão de negócios de longo prazo, que incorpora as dimensões socioambientais à estratégia e aos objetivos econômicos da empresa. 

Um programa de sustentabilidade corporativa tem início com a definição de uma política de sustentabilidade pela alta administração da empresa, ancorada em compromissos e valores a serem praticados pela organização. O foco competitivo é a diferenciação em relação aos concorrentes, alicerçada no desenvolvimento sustentável e no compromisso com as gerações futuras. 

A implantação do programa de sustentabilidade corporativa ocorre pelo desdobramento da política e dos compromissos e valores, em metas a serem atingidas em um determinado período e que possam ser medidas por indicadores. Dessas metas e indicadores, decorrem os planos de ação, contendo as práticas sustentáveis a serem adotadas e os responsáveis por tais ações. 

A fim de evidenciar e comunicar as práticas sustentáveis para as partes interessadas e mostrar o desempenho econômico, social e ambiental da empresa de forma integrada, podem ser adotados os relatórios de sustentabilidade e os balanços sociais, seguindo a metodologia do GRI — Global Reporting Initiative

É bom evidenciarmos que um dos sinais da valorização da Sustentabilidade Corporativa no Brasil é a adoção pela BOVESPA do ISE — Índice de Sustentabilidade Empresarial, já adotado por um grupo seleto de empresas. Este grupo, em futuro próximo, com certeza contará com a participação das empresas do setor da construção que já estão com seu capital aberto e com suas ações na Bolsa. 

Sustentabilidade de Empreendimentos

A sustentabilidade de empreendimentos está focada no seu desempenho ao longo da sua vida útil. As várias fases e atividades do processo de produção de um empreendimento — concepção, projeto, especificação de materiais, construção e uso e operação — devem ser consideradas na implantação da sustentabilidade. De forma sistêmica e resumida, os aspectos que devem ser considerados para um empreendimento sustentável são os seguintes: 

Qualidade da implantação  com inserção na paisagem urbana, qualidade do projeto urbanístico, recuperação de áreas degradadas, compensação de passivos ambientais do terreno, preservação da vegetação, eliminação de ilhas de calor, áreas livres permeáveis, áreas de estacionamentos que incentivam o combustível alternativo e o uso de bicicletas. 

Economia de água  com projetos de reuso, captação pluvial, adoção de componentes que reduzam seu consumo, tecnologias inovadoras para redução do volume de esgoto (mictórios e bacias), estação de tratamento de esgoto. 

Eficiência energética  com projetos racionalizados de ar-condicionado, iluminação, transporte horizontal e vertical. Adoção de equipamentos de alto desempenho energético, medição individualizada, energia renovável, energia éolica, aquecimento solar, comissionamento de instalações. 

Qualidade do ambiente interno  com conforto térmico, visual, acústico, ventilação, iluminação natural, qualidade do ar interno, especificação de materiais que não emitam compostos orgânicos voláteis e CFC, controle da fumaça de tabaco. 

Especificação de materiais sustentáveis  com alto teor de reciclados em sua fabricação e baixas emissões de gases que aumentam o aquecimento global, madeira certificada, declaração ambiental do produto, seleção de fornecedores com práticas de responsabilidade social. 

Projeto de coleta seletiva do lixo  do empreendimento e previsão de locais para materiais recicláveis. 

Industrialização da construção,  racionalização de sistemas construtivos, redução de desperdícios e minimização dos impactos da obra na sua vizinhança, programa de coleta seletiva e gestão dos resíduos. 

Responsabilidade social  no canteiro, por meio de ações de inclusão social, educação ambiental e programas de capacitação e inserção da comunidade local. 

Manual de uso e operação do empreendimento,  orientando os administradores do condomínio e os futuros usuários para adoção das práticas de uso sustentável, visando atingir o desempenho projetado e previsto ao longo de sua vida útil. 

Adoção de indicadores de desempenho do empreendimento em relação à sustentabilidade  para serem avaliados na fase de uso e operação, propiciando dados e informações para a gestão do condomínio e gerando benchmark para a concepção e projeto de novos empreendimentos. 

Certificação ambiental de empreendimentos,  avaliando o desempenho do empreendimento com base na nova concepção de “edifícios sustentáveis” e em modelos de certificação e normas reconhecidas internacionalmente, como a certificação LEED — Leadership in Energy and Environmental Design e a HQE — Haute Qualite Environnementale, adaptado para o Brasil sob o nome de AQUA — Alta Qualidade Ambiental. 

De forma lenta e gradual, o setor da construção no Brasil vem buscando um caminho sustentável. É importante ressaltar que sustentabilidade é hoje uma questão de visão estratégica e decisão empresarial, que resulta em ganhos tanto para a companhia quanto para clientes, comunidade, sociedade, meio ambiente e gerações futuras. 

Roberto de Souza é engenheiro civil, mestre e doutor em engenharia pela Escola Politécnica da USP, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).